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  Título
O afeto e a memória no cinema de Fernando Spencer
Autor
Claudio Roberto de Araujo Bezerra
Resumo Expandido
Desde sua origem o cinema é considerado uma espécie de “lugar de memória”, expressão cunhada pelo historiador francês, Pierre Nora (1993), para designar espaços criados com o intuito de preservar a história do esquecimento provocado pela agitada vida moderna. Já em 1898, o cinegrafista polonês, Boleslas Matuszewski, defendeu a criação de um museu específico destinado aos filmes. Para Matuszewski (2016), os filmes teriam um potencial ilimitado para o ensino de história, uma vez que forneciam um acesso direto aos aspectos mais importantes do acontecimento filmado, sem a necessidade de certas explicações em sala de aula.

Matuszewski ficou conhecido por registrar eventos na corte do tsar russo, Nicolau II, exibidos nos cinejornais da época. A defesa que fez do cinema como memória social estava essencialmente atrelada às Atualidades. Alguns anos mais tarde, suas ideias foram retomadas por David Griffith, pai da narrativa cinematográfica clássica. O objetivo de Griffith era o de fazer o espectador se fixar exclusivamente no enredo de um filme, como se estivesse vendo a própria realidade histórica diante de seus olhos.

Em depoimento de 1915, ano de lançamento de sua primeira ficção de longa-metragem, O nascimento de uma nação, filme que aborda de maneira distorcida a formação dos Estados Unidos, Griffith defendeu que o cinema teria também o papel educativo de ajudar os alunos a visualizarem a história (MORETTIN, 2011).

Para o teórico estadunidense, Bill Nichols (2005), todo filme, seja ficção ou documentário é um produto de memória, porque mostra a cultura e os valores da sociedade que o produziu. Nessa perspectiva, o cinema, enquanto instituição e, sobretudo, por meio dos seus filmes, se constitui como uma poderosa ferramenta de registro, difusão e conservação da vida social de cada época.

Se todo filme é, de maneira involuntária ou não, um “lugar de memória”, há cineastas, entretanto, que fazem da memória uma espécie de leitmotiv, que em certo sentido revela uma marca do conjunto de sua obra. É o caso do pernambucano Fernando Spencer. Seus filmes expressam um desejo de luta contra o esquecimento. Não é à toa que Spencer é justamente reconhecido como o principal responsável pela recuperação e preservação da memória do Ciclo do Recife. Este é um dos temas recorrentes de seus documentários e foi também objeto de uma ficção.

Mas Spencer não era um memorialista no sentido convencional do termo. Seus filmes não se entregam às reminiscências de histórias passadas, em um retorno saudosista para manter viva e intocável a tradição. Nos filmes de Spencer a memória é essencialmente afetiva e reconstruída no presente por meio de fragmentos do passado, numa tentativa contínua de reinvenção, muito próxima do conceito de história em Walter Benjamin. Neste sentido, a memória se manifesta como possibilidade de renovar o passado e, de algum modo, para mantê-lo ativo no presente construindo devires.

A partir da análise de dois curtas-metragens, Estrelas de Celulóide (1986) e O Último Bolero no Recife (1987), essa comunicação aborda como se dá, na prática, a relação com a memória nos filmes de ficção de Spencer. Entre outras coisas, pretende-se aqui mostrar que nem sempre a tentativa de reconstruir um devir recolhendo fragmentos do passado é uma tarefa bem sucedida na obra de Spencer, em função das vicissitudes e circunstâncias da vida.

Em Estrelas de Celulóide, os fragmentos da memória das estrelas femininas do ciclo do Recife são colhidos por um grupo de garotas numa tentativa de reinventar a tradição cinematográfica pernambucana. Por outro lado, em O Último Bolero no Recife, um ex-exilado tenta reconstruir a vida a partir de fragmentos da memória de uma paixão juvenil por uma prostituta, mas não conhece porque é morto. Quem terá mesmo dado fim a sua história? O filme não mostra, mas, considerando o contexto político do país, na época em que ele foi rodado, pode-se intuir que tenha sido uma ação de Estado, impedindo a eclosão de um porvir.
Bibliografia

BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política. Obras escolhidas, v.1. São Paulo: Brasiliense, 1999.

MATUSZEWSKI, Boleslas. A New Source of History (1898), in KAHANA, Jonathan. The Documentary Filme Reader. New York: Oxford University Press, 2016, p. 48-51.

MORETTIN, Eduardo. “Ver o que aconteceu: Cinema e História em Griffith e Spielberg”. Revista Galáxia, São Paulo, n. 22, p. 196-207, dez. 2011.

NICHOLS, Bill. Introdução ao documentário. Campinas: Papirus, 2015.

NORA, Pierre. Entre memória e história: a problemática dos lugares. Projeto História. São Paulo, PUC, n.10, p.7-28, dez.1993.