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  Título
Imagens do Estado Novo 1937-45: reflexividade e montagem de arquivos
Autor
Márcio Zanetti Negrini
Resumo Expandido
Neste trabalho buscamos discutir como o longa-metragem "Imagens do Estado Novo 1937-45", lançado em 2016 e dirigido por Eduardo Escorel, problematiza uma compreensão sobre o Estado Novo brasileiro através dos usos das imagens de arquivos e as ressignificações do entendimento histórico por meio do processo de montagem. O filme elabora uma narrativa com arquivos dos cinejornais produzidos pelo regime do Estado Novo, de cinejornais de governos estrangeiros, filmes de atualidades, domésticos – incluindo os de cinegrafistas amadores que registraram o cotidiano das ruas –, imagens de manuscritos oficiais, recortes de jornais da época, fotografias do período e também fragmentos do diário íntimo de Getúlio Vargas. Com isso, propomos compreender as ressignificações que a narrativa produz a partir desses arquivos, ao mesmo tempo em que reflexiona acerca de sua própria montagem.

Percebemos no filme grupos de imagens como, por exemplo, os cinejornais oficiais do regime varguista, os quais, ao serem articulados com outros grupos de arquivos – como as imagens de cotidiano –, passam a ter o seu estatuto de versão oficial, ou versão legítima da história, colocado em xeque. Esse cruzamento dos grupos de imagens oficiais e não oficiais opera a construção de uma outra narrativa para a história, que também nos dá a ver a reflexividade sobre o processo de montagem.

O narrador, por meio da locução, questiona-se sobre ser possível fazer um documentário acerca do Estado Novo usando cinejornais que foram produzidos para fazer propaganda do regime. Tal questionamento toca uma espécie de concepção que o filme apresenta sobre si mesmo. Com a questão que se coloca a respeito da possibilidade de ressignificação das imagens do Estado Novo, notamos, por meio da leitura que Deleuze realiza de Foucault, que o filme engendra conjuntos de arquivos em que “(...) conecta pontos de criatividade, de mutação, de resistência; é deles, talvez, que será preciso para se compreender o conjunto”. (Deleuze, 2005, p. 53). Assim a questão colocada sobre os arquivos dos cinejornais do regime se desenvolve em resposta pela montagem, pois ela intersecciona os diferentes conjuntos de arquivos presentes no filme.

Na operação de montagem dos cinejornais oficiais do regime varguista com, por exemplo, os arquivos do diário íntimo de Getúlio Vargas, é produzida pelo filme uma reflexividade sobre o seu processo de feitura. O caráter lacunar do diário é colocado em relação ao aspecto parcial das imagens de arquivo, sejam elas dos cinejornais brasileiros, e ao seu aspecto de comunicação oficial, sejam os manuscritos do cotidiano do ex-presidente em seu caráter íntimo. O trabalho de montagem da narrativa pode ser pensado na relação que Farge (2009) estabelece entre o historiador e o narrador. Para a autora, a operação arqueológica que caracteriza o empenho no manuseio de arquivos coloca-se por meio da criação de narrativas, ou seja, montagens cujas significações podem aproximar diferentes vozes – e imagens – que não criam o uníssono, porém viabilizam uma leitura crítica da história em seu caráter fragmentário e provisório.

Observamos que, ao aproximar os cinejornais brasileiros ao diário íntimo de Getílio Vargas, o filme reelabora o íntimo e o oficial que, no caso de um regime ditatorial com o caráter personalista do Estado Novo, produz uma chave de leitura crítica sobre as circunstâncias do poder de Estado. Sobretudo, o filme insere junto a essas imagens arquivos de cotidiano das ruas e do cotidiano doméstico dos populares. Assim, através da montagem, cria-se a possibilidade de interpretarmos disposições afetivas em que se mesclam às conjunturas político-sociais. Simultaneamente, a montagem opera sua reflexividade acerca do manuseio de arquivos e nos mostra como os discursos de autenticação da história implicados nos cinejornais podem ser tensionados ao relacionarem-se com outros arquivos.
Bibliografia

BENJAMIN, W. Passagens. 1ª ed. Belo Horizonte: Editora UFMG, São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2006.



______. Obras escolhidas: magia e técnica, arte e política. 7ª ed. São Paulo Brasiliense, 1994.



Deleuze. Foucault. 1ª ed. São Paulo, Brasiliense, 2005.



Didi-Huberman, G. Imagens apesar de tudo. 1ª ed. Lisboa: KKYM, 2012.



Farge, A. O sabor do arquivo. 1ª ed. São Paulo: Edusp, 2009.



RANCIÈRE, J. O destino das imagens. 1ª ed. Rio de Janeiro: Contraponto, 2012a.



______. O Espectador emancipado. 1ª ed. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2012b.



______. Figuras de la historia. 1ª ed. Buenos Aires: Eterna Cadencia Editora, 2013.