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  Título
Just "Looking": analisando um passo adiante da intimidade gay na TV
Autor
Rodrigo Ribeiro Barreto
Resumo Expandido
A renovação atual da representação gay na TV caracteriza-se por um reforçado investimento na intimidade dos personagens através de diálogos, situações e imagens de sexo, que nem querem apenas excitar, como no pornô, nem querem necessariamente chocar ou subverter valores, como no audiovisual queer/transgressivo. Andrew Haigh é um dos expoentes contemporâneos desse arejamento da representação da homoafetividade: proponho aqui a análise do projeto Looking – série (2014-2015) e telefilme (2016) –, no qual o realizador atuou como produtor executivo, roteirista e diretor. Embora, nesses trabalhos para a TV, sejam retomados códigos cinemáticos empregados em longas de Haigh – Greek Pete (2009) e Weekend (2011) –, Looking tem também Michael Lannan como idealizador das escolhas estético-narrativas engendradas, o que traz a possibilidade de analisá-lo como exemplo de autoria compartilhada. Nesse sentido, as próprias vinculações identitárias desses profissionais são determinantes para pautar temas audaciosos.

Uma característica de Looking é o desvio de foco sobre temas comumente associados à comunidade LGBT. Embora não apareçam como questões superadas, a saída do armário, dificuldades de aceitação familiar, intolerância religiosa ou no trabalho, a homofobia externa ou interiorizada têm uma posição coadjuvante nessas histórias. Assim, o enquadramento desse grupo minoritário passa da esfera aceitável como tema social para a da franca exibição íntima, desafiadora simplesmente por se mostrar sem subterfúgios.

Tal opção continua arriscada, uma vez que – considerando constrições econômicas e disputas por audiência – o campo televisivo ainda responde a um contexto sociocultural heterocisnormativo. Houve obras deflagradoras de modificações nesse sentido, como Queer as Folk UK (1999-2000) ou The L Word (2004-2009); por isso, recorrências ao passado televisual são importantes para abordar o ritmo das mudanças e o estabelecimento de afiliações e distanciamentos entre os programas. Séries com tematização LGBT seguem sendo rotuladas como obras de nicho, o que certamente se reflete na limitação de seu público, além da concomitante resistência de opositores. Isso tem consequências na própria possibilidade de sobrevivência de certos programas através da não renovação de suas temporadas. Uma das últimas fronteiras entre a palatabilidade ou não de representações LGBT junto ao grande público continua sendo demonstrações de homoerotismo masculino: como já discorreu Lehman (2001/2007), a simples exibição de nus frontais de homens continua a ser motivo de alarde (mesmo em tramas heterossexuais), o que, não raro, tira a atenção de outros elementos das obras.

Looking não se acanha em termos de erotização masculina, fazendo referência a um repertório de práticas eróticas mais usuais no pornô. Embora visualmente atenuada mesmo com relação ao cinema do próprio Haigh – no qual já fez até eventual apelo ao registro explícito –, esse flerte da série televisiva com o supostamente pornográfico concretiza-se especialmente pela centralidade da discussão/exibição do sexo anal, com práticas penetrativas tendo virado inclusive mote de episódios inteiros. Em tempos de forte recidiva conservadora, a discussão sobre a validade desse recurso tem marcada importância política.

A representação de diferentes masculinidades em Looking passa também por interseções com questões etárias, étnico-raciais, econômicas e corporais. À época de sua exibição, houve debates a respeito da diversidade dessa apresentação, cujo êxito pode ser medido através da observação da variedade de tipos físicos exibidos e dos modos como são encarados nas tramas. Por fim, a análise ilustra e complexifica aquilo que Giddens (1992, p. 24) chamou de “nova face pública da homossexualidade”, algo que passaria pela constituição de relações consensuais menos hierarquizadas, englobando relações de amizade “como modo de vida” (Foucault, 1981), encontros casuais e diferentes tipos de compromisso amoroso.
Bibliografia

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