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  Título
A memória que se ensaia: Já visto, jamais visto e o tempo experimental
Autor
Laís Ferreira Oliveira
Resumo Expandido
Este trabalho se debruça em torno das formas de organização da memória em "Já visto, jamais visto("2013), de Andrea Tonacci. Nesse sentido, investigamos como o uso dos elementos ensaísticos, ficcionais e do uso da imagem de arquivo no longa-metragem constituem formas não encerradas da memória. Conforme aponta Theodor Adorno, “a relação com a experiência - e o ensaio confere à experiência tanta substância quanto a teoria tradicional às meras categorias - é uma relação com toda história”(ADORNO, 2003, p.26). O filme foi principiado pela organização dos arquivos do cineasta em 2012, quando Tonacci completava 70 anos e, como destaca a produtora e pesquisadora Patrícia Mourão, “a nostalgia o lançava em direção a um tempo passado, e perdido. Esse tempo é dos rostos, amizades, filmes amores idos, mas também um tempo em que o cinema era, para ele, possível”(MOURÃO, 2012, p. 98). Essa possibilidade do cinema é exercida em um filme que se organiza com traços ensaísticos, fragmentos de uma ficção inacabada, excertos de outras obras do diretor e imagens de arquivo.

Para Timothy Corrigan, em "O filme-ensaio", a potencialidade do ensaio é o questionamento dos paradigmas da representação, na medida em que, especialmente no cinema, situam-se entre o documentário e a ficção. Em "Já visto, jamais visto", não há o emprego de elementos recorrentes no filme-ensaio, como o uso da voice over ou de cartelas, mas um olhar que se ensaia sobre o mundo. Nesse sentido, Tonacci constrói uma obra que, se parte da ficção inacabada "Paixões", é montada com imagens de arquivo de outras de suas obras, fragmentos de filmes de família e imagens experimentais. Há um ensaio sobre a memória que se organiza livre e afetivamente, em um fluxo no qual aquilo que já foi esquecido, o já visto, torna-se ressignificado pelo cinema, jamais visto antes dessa montagem, desse desejo de cinema. Essa relação pode ser compreendia a partir do que afirmar Didi-Huberman em "O que vemos, o que nos olha". O autor afirma que o “que vemos só vale - só vive - em nossos olhos pelo que nos olha. Inelutável porém é a cisão que separa dentro de nós o que vemos daquilo que nos olha. Seria preciso assim partir de novo desse paradoxo em que o ato de ver só se manifesta ao abrir-se em dois”(DIDI- HUBERMAN, 2014, p.29). Ensaiar a memória é diferenciar-se da ordem cronológica. Esse gesto estabelece relações com o tempo que podem ser compreendidas a partir das teses de Henri Bergson(1990) e Giles Deleuze. As teses bergsonianas discordem acerca da forma da percepção pura e levantam a hipótese que o“papel de nossa consciência na percepção se limitaria a ligar pelo fio contínuo da memória uma série ininterrupta de visões instantâneas, que fariam parte antes das coisas do que nós”(BERSGON, 1990, p.48). Ao pensarmos essas relações em Já visto, jamais visto, há a possibilidade de recorrermos às duas memórias que Bergson elenca: a lembrança espontânea e a lembrança apreendida, que pensam o tempo para além da representação.

Retomamos, também, o trabalho de Walter Benjamin(1989), que caracteriza a memória de duas formas: a voluntária e a involuntária. A primeira se associaria por uma relação mais intelectual como o tempo; a segunda, por uma ordem afetiva. Já visto, jamais visto possibilita que entendamos as experiências de memória entre as categorias benjamininianas e bergsonianas. Nessa memória em constante ensaio, podemos pensar as imagens que a compõe a partir do que discute Gilles Deleuze em "A imagem-tempo". Nesse cinema, as imagens são “de uma profunda intuição vital”(DELEUZE, 2013, p.33) e poderiam, em cristais do tempo, colocar em trânsito relações de atualidade e virtualidade da representação. Considerando esses elementos, este trabalho discute as formas como a memória se estabelece em Já visto, jamais visto, tendo em vista o caráter experimental e ensaístico do filme.
Bibliografia

ADORNO, Theodor. O ensaio como forma. In. Notas de literatura. Trad. Jorge de Almeida. São Paulo:editora 34, 2003. p. 15-45

BENJAMIN, Walter. Sobre alguns temas em Baudelaire. In: ______ . Charles Baudelaire: um lírico no auge do capitalismo. Obras Escolhidas III. São Paulo: Brasiliense, 1989, p.103-149



BERGSON, Henri. Matéria e memória. Tradução Paulo Neves da Silva. São Paulo: Editora Martins Fontes, 1991.

CORRIGAN, Timothy. O filme-ensaio: Desde Montaigne e depois de Marker. Campinas: Papirus, 2015.

DELEUZE, Gilles. A imagem-movimento: cinema 1: São Paulo: Brasiliense, 1983.


————. A imagem-tempo: cinema 2. Tradução Eloisa de Araujo Ribeiro. São Paulo: Brasiliense, 2013.

DIDI–HUBERMAN, Georges. O que vemos, o que nos olha. Tradução Paulo Neves. São Paulo: Ed. 34, 1998. FERREIRA, Jairo. Cinema de invenção, Rio de Janeiro: Livraria Cultura, 2000. 256p.

MOURÃO, Patrícia. Do arquivo ao filme: sobre já visto jamais visto. In: Devires – Cinema e Humanidades. UFMG- v.9. n. 2. 2