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  Título
Disputas de memória urbana: os casos de Remoção e Domínio Público.
Autor
Gabriel Neiva
Resumo Expandido
Os filmes “Remoção”, dirigido por Anderson Quack e Luiz Antônio Pilar e “Domínio Público”, realizados (finalizados em 2013 e 2014, respectivamente) exploram as transformações espaciais e sociais do Rio de Janeiro, sob a égide de dois momentos chaves da cidade: o período da ditadura civil-militar (anos 1960) e a preparação para a chamada “era dos megaeventos (final da década de 2000 até 2014). Apesar de estarem situados em momentos históricos distintos, ambos constroem uma narrativa que evidencia a recorrência das remoções de populações de favelas e comunidades de baixo IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) como solução dos problemas urbanísticos e de infraestrutura.

Por sua vez, “Remoção” faz parte de um movimento de revisão da narrativa de remoções de algumas favelas da Zona Sul durante a década de 1960. Iniciada pela gestão do governo Carlos Lacerda e finalizada por Negrão de Lima, no auge da ditadura, extinguiu as comunidades da Catacumba, Praia do Pinto, Macedo Sobrinho, entre outros, em sua maioria parte da zona sul da cidade. Segundo o estudo de Rômulo Mattos (2013), foram cerca de 80 favelas atingidas e cerca de 130 mil habitantes removidos, na sua maioria para assentamentos criados na Zona Oeste da Cidade, como os complexos da Cidade de Deus, Vila Kennedy e Vila Kosmos. Assim como o artigo de Mattos, obras acadêmicas historiográficas como as de Mário Brum (2013) e Marco Pestana (2016) evidenciam a centralidade desse processo dos anos 1960 como chave de compreensão para o momento atual. Além destes, soma-se a tais contribuições, em 2016, dois registros sobre aqueles acontecimentos: o relatório da Comissão da Verdade do Estado, descortinando a pouca divulgada repressão aos movimentos de moradores de favela resistentes à ditadura militar e a exposição de fotos do casal de antropólogos estadunidenses Anthony e Elizabeth Leeds, cujos registros de favelas cariocas oferecem um registro raro de diversas favelas pré remoções. Dessa forma, “Remoção”, sob roupagem fílmica documental, oferece um registro usualmente de uma narrativa antes silenciada, como nos dizeres de Michael Pollak (1989), participando de um rearranjo de uma certa “memória coletiva” de tais acontecimentos.

Enquanto isso, “Domínio Público” constrói uma narrativa fílmica que evidencia os abusos governamentais e econômico em torno do projeto dos megaeventos. A película se posiciona em consonância com trabalhos de estudiosos do Rio de Janeiro contemporâneo como Carlos Vainer (2009), Fernanda Sanchez (2010) e Lucas Faulhaber (2015) e com o dossiê de denúncia de abusos de direitos humanos finalizado pela Comissão Popular da Copa e das Olímpiadas, sinalizando a conexão entre a criação da imagem de uma cidade “mercadoria” em escala global e o aprofundamento da exclusão econômica e social. Corrobora-se tal processo pela insistência de privatizações de espaços públicos como o estádio do Maracanã, tendo como ação subsequentes a consolidação do processo de militarização das favelas através do projeto das UPPs (Unidade de Polícia Pacificadora) e a retomada da política das “remoções forçadas” para abrir caminho às demandas dos organizadores de megaeventos.

Assim, “Remoção” e “Domínio Público” fazem parte de um corpus de discursos que se contrapõem às versões oficiais governamentais que comumente tentam abafar as violentas contradições das “remoções forçadas”. Assim, esses documentários, operam, como na reflexão de Beatriz Sarlo (2007) uma “guinada subjetiva” da narrativa sobre tal processo, evidenciada pela disputa da chamada memória coletiva de tais acontecimentos. Essas disputas confirmam também a relação entre espaço/experiência urbana e memória, conforme teorizada por autores como Andreas Huyssen (2000), pois descortinam, através do registro fílmico de cunho pessoal e/ou militante, o vai e vem entre passado e presente. Apresenta-se, dessa forma, fragmentos de discursos antes “esquecidos” sobre o processo de ocupação espacial da cidade do Rio de Janeiro.
Bibliografia

BRUM, Mário. Favela e remocionismo ontem e hoje: da ditadura de 64 aos grandes eventos, in: O Social em Questão, n. 29, 2013.



FAULHABER, Lucas. SHM: Remoções no Rio de Janeiro olímpico. Rio de Janeiro: Editora Mórula, 2015.



HUYSSEN, Andreas. Seduzidos pela memória. Rio de Janeiro: editora Aeroplano, 2000.



MATTOS, Rômulo. Remoções das favelas na cidade do Rio de Janeiro: uma história do tempo presente, in: Outubro, n. 21, 2013.



PESTANA, Marco Marques. A união dos trabalhadores favelados. Niterói: Ed Uff, 2016.



POLLAK. Michael “Memória, Esquecimento e Silêncio”. In Estudos Históricos, volume 3, Rio de Janeiro, 1989.



SANCHEZ, Fernanda. A reinvenção das cidades para um mercado mundial. Chapecó: Editora Argos, 2010.



SARLO, Beatriz. Tempo passado, cultura da memória e guinada subjetiva. Belo Horizonte: UFMG, 2007.



VAINER, Carlos. “Pátria, empresa e mercadoria: a estratégia discursiva do

planejamento estratégico urbano” in: A cidade do pensamento único. Petrópolis: Editora Vozes