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  Título
Films d’amour (1969-89): cinzelamento e erotismo no cinema de Lemaître
Autor
Fábio Raddi Uchoa
Resumo Expandido
O Letrismo é uma vanguarda francesa constituída entre os anos 1940-50, que se desdobra entre diferentes frentes artísticas, como as artes plásticas, a poesia, a música e o cinema, tendo entre seus principais expoentes o romeno Isidore Isou, os franceses Maurice Lemaître e Gil Wolman, entre otros. Em termos de proposta estética, o movimento tinha como horizonte a autodestruição das formas artísticas, propondo também a superação da divisão entre artista e espectador. Inicialmente associado à poesia fonética, o grupo enfatizará a sonoridade em oposição à significação das palavras. A proposta era despir a poesia de seu elemento semântico, voltando-se ao universo formal, trazendo à tona operações de colagem, em tom provocativo, retomando assim práticas presentes no futurismo e no surrealismo. No cinema, os artistas praticarão releituras do manifesto de Isidore Isou acerca de um cinema 'cinzelante'. Em oposição ao cinema clássico, tratava-se de questionar sua unidade artística a partir de uma operação de ruptura. Faziam parte de tais reivindicações: a cisão total entre as bandas sonora e imagética, bem como as intervenções manuais diretas sobre o suporte fílmico.

Com uma obra extensa e singular, Maurice Lemaître será um dos grandes expoentes da sétima arte letrista. Entre 1951 e a atualidade, o poeta e cineasta francês dialoga com a ação de cinzelamento, tal como reprocessada por Isou, incorporando-a em duas principais instâncias. Por um lado, nota-se a construção de uma banda de imagens fragmentar, usada como suporte para o recitar sonoro de poesias letristas. Por outro, há experiências de provocação à plateia, considerada como parte da performance cinematográfica.

Films d’Amour (1969-89), cujo debate será realizado nesta fala, é um conjunto de quatro filmes , feitos por Lemaitre e relacionados à temática do erotismo. Apesar da grande abrangência temporal, existem entre eles continuidades temáticas e estéticas, que remontam ao diálogo com a proposta de um cinema 'cinzelante'. Com variações ao longo dos quatro curtas, há a negação de um possível erotismo convencional, levando em conta algumas de suas construções desde o contexto do cinema silencioso. Nota-se um desfile fragmentar de imagens-clichês e planos de filmes pornôs amadores, em ambos os casos com intervenções manuais, sobrepostas pela declamação de poesias letristas por vozes over. Ao cabo de alguns instantes, a sucessão de cores e rabiscos em primeiro plano acaba por impedir a efetivação do olhar presente nas imagens originais, atentando muito mais aos ritmos e possíveis padrões de desenhos sobre o material fílmico, bem como às presenças vocais rítmicas e acusmáticas. Isso não nega, porém, a construção de um outro tipo de erotismo, marcado por uma espécie de ode à fragmentação sonora e visual. Levando em conta Films d’Amour (1969-89), o intuito é contextualizar este conjunto de imagens e sons junto ao cinema letrista, pensando nos contatos com as propostas de Isidore Isou. Por outro lado, avançando-se para uma análise interna, a preocupação é definir o tipo de cinzelamento existente, em suas dimensões fragmentares e assincrônicas, que contribuem para a construção de um erotismo particular, que merece definição.



* Films d’Amour (1969-89) é constituído por: L'Amour reinvente (1979), 16mm; Des scènes d'amour très réalistes avec force détails et gros plans (1978), Super-8; L'Amour, qu'est-ce? (1976-1989), 16mm; Chantal D., Star (1968), 16 mm.
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