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  Título
Narrativas de pertencimento nos filmes Aquarius e Boi neon
Autor
aline lisboa da silva
Resumo Expandido
Algo característico do cinema brasileiro contemporâneo é a divisão interna apresentada em seu modelo estilístico, que vai desde um “cinema de mercado ao de empenho cultural” (ORICCHIO, 2012, p. 146), o que para Ismail Xavier (2001) significa um confronto entre o experimental, um cinema mais autoral, como é o caso de Andrea Tonacci, Júlio Bressane ou ainda Cláudio Assis; e um cinema de entretenimento, que objetiva apenas conquistar grandes bilheterias, como se apresenta a maioria das produções nacionais.

Neste sentido, encontramos em produções de Kleber Mendonça Filho e Gabriel Mascaro aspectos do primeiro estilo citado, já que ambos apresentam em suas filmografias traços marcados por uma expressividade muito particular, quase documental, com o uso de técnicas do cine-documentário, além do caráter politizado instituído à maioria das produções. Embora, tais características não se apresentem unicamente apenas em relação ao cinema desses diretores, mas sim em uma vertente muito mais regionalista, como o próprio cinema de Pernambuco.

Fatos como esse nos conduz a investigações mais aprofundadas buscando compreender o dialogismo circunscrito entre as produções brasileiras contemporâneas e seu público, a partir do campo teórico dos Estudos culturais. Afinal, como podemos analisar a correspondência entre os sujeitos da tela com quem os assiste? De que modo essas representações, ora se fracionam, ora se interligam? O cinema de Pernambuco, a partir da construção de personagens plurais, muitas vezes representados de modo estigmatizado, tenta instituir quebras de paradigmas em propostas como a da personagem Clara em Aquarius, ou ainda com Iremar em Boi neon?

Propostas definidas por problematizar relações entre identidade e território, os filmes de Gabriel Mascaro e Kleber Mendonça Filho trazem à tona conflitos construídos a partir de subjetividades que desenvolvem uma política cultural da diferença (STAM, 2003). De um lado Iremar, vaqueiro que sonha ser estilista, em um agreste, ao mesmo tempo, industrial e rural; de outro Clara, jornalista aposentada que se nega a vender seu imóvel (único restante) no edifício Aquarius, praia de Boa viagem em Recife.

As histórias se passam em Pernambuco, mas apresentam dicotomias em suas narrativas de pertencimento, sobretudo porque o enfoque territorial dado a Aquarius é de ordem culturalista (HAESBAERT, 2007), enquanto em Boi neon a perspectiva é mais econômica, de ordem capital-trabalhista; ou seja, se em Clara percebemos uma construção simbólica, que destaca sua identidade social sobre o espaço, em Iremar a apropriação do território é de cunho material, o quem vem a ser produzido/realizado nele, e não, necessariamente, por uma construção simbólico-afetiva, como em Aquarius.

Contudo, acreditamos na relevância desta pesquisa acerca das narrativas de Aquarius e Boi neon, onde identidades complexas e multifacetadas se confrontam com uma geografia revelada por mudanças, que sinalizam intencionalidade de progresso diante de contextos marcados por relações de poder (RAFFESTIN, 1993), tanto institucional como em Aquarius, representado pelo embate entre o velho e o novo; quanto econômico-social como em Boi neon, onde assistimos a um nítido conflito identitário cultural do protagonista. Os dois filmes são assinalados por profundas transformações que se dão entre os territórios e suas personagens, sendo o primeiro caracterizado por luta e resistência na ocupação desse espaço, e o segundo traduzido, dentre outros, em tentativa de libertação.
Bibliografia

HAESBAERT, Rogério. Identidades territoriais: entre a multiterritorialidade e a reclusão territorial (ou: do hibridismo cultural á essencialização das identidades). In: ARAÚJO, Frederico Guilherme; HAESBAERT, Rogério (Orgs.). Identidade e Territórios: questões e olhares contemporâneos. Rio de Janeiro: accss, 2007, p. 93-123.

HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. 11. ed. Rio de Janeiro, RJ: DP&A, 2006.

ORICCHIO, Luiz Zanin. Cinema brasileiro contemporâneo (1990-2007). In: BAPTISTA, Mauro; MASCARELLO, Fernando (Orgs.). Cinema mundial contemporâneo. Campinas, SP: Papirus, 2008.

RAFFESTIN, Claude. Por uma geografia do poder. São Paulo: Ática, 1993.

STAM, Robert; MASCARELLO, Fernando (Trad.). Introdução à teoria do cinema. 4. ed. Campinas: Papirus, 2010.

VANOYE, Francis; GOLIOT-LETE, Anne. Ensaio sobre a análise fílmica. 7. ed.Campinas/SP:Papirus, 2011.

XAVIER, Ismail. Cinema brasileiro moderno. 2. ed. São Paulo: Paz e Terra, 2001.