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  Título
O parecer e o aparecer do ator : registros do jogo atoral
Autor
Pedro Maciel Guimaraes Junior
Resumo Expandido
Os regimes representativo e apresentativo regem os procedimentos de produção e recepção das artes performáticas puras ou impuras : teatro, dança, ópera, cinema, televisão. Tais termos já são amplamente discutido na literatura especializada de língua inglesa e francesa : representational X presentational; présenter X représenter. Esses termos tentam dar conta de um fenômeno amplo de produção e percepção de situações narrativas e plásticas envolvendo os elementos significantes particulares de cada meio de representação. Dicotômicas, resumem posturas distintas do ponto de vista do criador, da elaboração do texto e do processo comunicacional que se estabelece entre obra e receptor.

A lógica representativa e apresentativa vá muito além da dimensão do trabalho do corpo em cena. Aqui, pretende-se apresentar uma contribuição terminológica para a questão. Propomos os termos “parecer” e “aparecer”, que bebem na fonte dessa dicotomia generalista mas que será aplicada diretamente aos regimes de atuação do jogo dos atores. Ambas concernem a relação entre os elementos significantes do texto e entre esses e o público receptor. Os eixos de análise do estudo atoral explorados serão assim entre o ator e o personagem e entre o ator e a mise en scène (dimensão textual) e entre o ator e o espectador (dimensão comunicacional).

Essa polaridade se calca em outra : a que opõe a transparência à opacidade, termos já balizados nos estudos de cinema. Propomos do lado da primeira, o “parecer”, termo que remete diretamente ao reinado da mimese, da imitação de um referente corporal no mundo concreto, dos procedimentos retóricos que visam a identificação (entre ator-personagem e entre personagem-espectador), tentativa de criar um “personagem-pessoa” com verossimilhança e nuance psicológicas. Tal método se inscreve dentro da tradição mais antiga do teatro, que ao longos dos séculos foi sendo recuperada e trabalhada, de Platão a Lee Strasberg, num arco histórico recheado de grandes nomes de encenadores e teóricos do jogo atoral. Aqui, a regra da atuação é que o ator deve desaparecer por trás da camada ficcional que é o personagem, através de efeitos de jogo naturalista, dos efeitos de realismo psicológico, da busca pela espontaneidade e por uma inteireza que mascara o primeiro em detrimento do segundo.

Do lado da opacidade, propomos o “aparecer”, que nega a construção mimética através de uma série de procedimentos e técnicas que buscam a disjunção entre as identificações já descritas e cria um intervalo entre o ator e personagem. Nesse intervalo, o espectador vai colocar elementos de sua própria individualidade e das condições concretas de recepção da obra. Se na anterior recorre-se à mimese como retórica principal, aqui ela é substituída pela diegese. De um lado, o mostrar; do outro, o narrar. Visa-se explicitar para o espectador o processo de encarnação de um personagem pelo ator que é, no regime oposto, dissimulado. Nem sempre se alcançará a tão falada “consciência crítica e política” do espectador de Brecht e Piscator, mas tal técnica se inscreve no pensamento mais amplo de dar a ver o processo, de não envolver emocionalmente a todo custo o espectador e iludi-lo apenas com o produto terminado. Assim, ator e personagem estão autorizados a existirem em pé de igualdade; no lugar de um esconder o outro, ambos aparecem na mesma medida. O dentro da dimensão anterior,– assaz romântica, dirão alguns – dá lugar ao ao lado, mais crítica ou menos ilusória, permitindo ao ator comentar e refletir sobre seu processo de atuação.

Assim, serão analisados filmes onde o processo do aparecer do ator, pioneiro, deu lugar ao reinado do parecer com o cinema clássico; a inversão foi proposta, mais tarde, pelo cinema moderno, com o retorno do aparecer como via de regra para os regimes de atuação.
Bibliografia

NAREMORE James. Acting in the cinema. Berkely/Los Angeles/London: University of California Press, 1988.

STAM, Robert. O Espetaculo interrompido: literatura e cinema de desmistificação. Rio de Janeiro, RJ; São Paulo, SP: Paz e Terra, 1981.

WEIMANN Robert. 2000. Author's Pen and Actor's Voice: Playing and Writing in Shakespeare's Theatre. Cambridge: Cambridge University Press, 2000