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  Título
A evolução dos corpos no abrigo da casa
Autor
Ana Lucia Lobato de Azevedo
Resumo Expandido
A narrativa de Órfãos do Eldorado (2015), longa-metragem dirigido por Guilherme Coelho se passa tanto nos vastos exteriores amazônicos, quanto em alguns ambientes interiores, em particular a casa da família da personagem principal, Arminto Cordovil, onde transcorrem grande parte das cenas. Em uma reflexão inicial a respeito da espacialidade de Órfãos do Eldorado, a partir da construção dos espaços exteriores, observei que o filme se estrutura nos moldes do que Antoine Gaudin chama de cinema imagem-espaço, constituindo uma experiência espacial em si mesma, em que o tratamento dado do espaço vai além da mera representação, não se limitando a um pano de fundo para os dramas humanos (GAUDIN, 2015). Trata-se de um espaço concebido como um fenômeno dinâmico produzido pelo filme, engajando o corpo do espectador, no qual o que está em jogo é uma relação direta e física com o fenômeno espacial.

Minha proposta, nesta comunicação, é abordar os ambientes interiores, com foco no espaço da casa, bem como a mise em scène, com ênfase na movimentação dos corpos, relacionando tais aspectos à característica sensorial da narrativa. A casa é um espaço central na construção do filme, que se concentra, em grande medida, nas vivências interiores de Arminto desencadeadas com seu retorno à casa paterna. Como nos diz Bachelard, a casa é um ser privilegiado para o estudo do espaço interior (BACHELARD, 1993:23), constituindo-se numa “das maiores forças de integração para os pensamentos, as lembranças e os sonhos do homem” (BACHELARD, 1993:26). No antigo casarão habitado pela família de Arminto, seu corpo e o de Florita - misto de mãe, irmã mais velha e amante - evoluem, executando uma coreografia através dos diversos ambientes, expressando afetos, dores, quereres, raiva, rejeição. Muito do que é dito no filme, o é através da evolução dos corpos, de seu contato, suas aproximações, seus afastamentos bruscos. A movimentação das personagens e a relação que se estabelece entre elas é trabalhada no interior de planos de longa duração, muitas vezes realizados com a câmera fixa. Tal estilo se distingue do que predomina no cinema hollywoodiano atual, cujos filmes se utilizam basicamente de planos curtos, em sua maioria planos próximos e close-ups, enfatizando as informações estampadas no rosto, constituindo o que Bordwell chama de continuidade intensificada, com ênfase na montagem (BORDWELL, 2008).

Distanciando-se desse tipo de construção, alguns cineastas contemporâneos alcançaram o que David Bordwell chama de estilo híbrido, realizando uma síntese entre montagem e a tradição da mise em scène, a qual remonta aos primórdios do cinema e foi sendo progressivamente abandonada (BORDWELL, 2008:54). Atentos à capacidade do corpo de emitir sinais relativos a seus estados emocionais e suas relações com outros seres humanos, tais cineastas exploraram com maior intensidade o potencial expressivo das posturas, dos gestos, dos movimentos do corpo em sua inteireza, e não apenas do que é transmitido pelo rosto, além de criarem significado e emoção, sobretudo, por meio do que acontece no interior de cada plano, minimizando o papel da montagem.

Entendo que o filme aqui tratado se estrutura em consonância com o que Bordwell chama de estilo híbrido, o que será desenvolvido no trabalho ora proposto. Assim, esta comunicação tem como objetivo realizar uma leitura de Órfãos do Eldorado a partir da articulação entre a forma como é modelado o espaço da casa, a movimentação dos corpos em seu interior e a experiência sensorial propiciada pelo partido estilístico adotado pelo filme.
Bibliografia

AGEL, Henri. L’Espace cinématographique. Paris: Jean-Pierre Delarge, 1978.

AUMONT, Jacques. O cinema e a encenação. Lisboa: Texto & Grafia, 2008.

BACHELARD, Gaston. A poética do espaço. São Paulo: Martins Fones, 1993.

Bordwell, David. Figuras traçadas na luz: a encenação no cinema. Campinas, SP: Papirus, 2008.

GAUDIN, Antoine. L’espace cinématographique: esthétique et dramaturgie. Paris: Armand Colin, 2015.