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  Título
Autorretrato e performatividade: o ensaio no cinema de exposição
Autor
Rodrigo Corrêa Gontijo
Resumo Expandido
No campo do Cinema de Exposição nos deparamos com elementos recorrentes das artes performáticas como as narrativas autorretratísticas e os procedimentos performativos, características que apontam para uma dimensão ensaística como veremos a partir das 03 obras que serão analisadas nesta comunicação.

Me and Rubyfruit (Sadie Benning, 1989) aborda questões referentes aos sonhos, desejos e medos de uma adolescente em confissões num formato de filme-diário; Why I never became a dancer (Tracey Emin, 1995) retoma uma situação abusiva que aconteceu na adolescência da realizadora e Confession (Marina Abramovic, 2010), registra uma ação performativa, com textos que resgatam memórias familiares dolorosas, atravessando horizontalmente no rodapé da imagem.

Nestes trabalhos observamos o pensamento aparentemente se constituindo e questionando fatos, lidando com fragmentos de memórias que abordam experiências pessoais a partir de afirmações que se utilizam de diferentes formas para as construções discursivas como voz em off, textos, montagem dinâmica, plano seqüência, todos eles trazendo a subjetividade e a experiência de cada uma das artista.

Além disto, estes filmes apresentam uma dimensão performativa marcante, seja na mis-en-scène, na relação que estabelecem com câmera registrando de partes do próprio corpo, dançando diante dela ou mesmo ficando numa posição imobilizada por quase uma hora. Vemos os traços performativos também na modulação, ritmo e intensidade da palavra verbalizada e escrita que instauram uma aproximação entre passado e presente propiciando resgates da memória. A performatividade oferece a oportunidade de reflexão sobre um acontecimento, não apenas como um discurso daquilo que foi, mas questionando a presença do que se tornou, atualizando-se assim no instante do acontecimento. O ato implica em não observar à distância, mas observar de dentro, sob o que foi vivido. Como aponta Josette Feral (2009), “a performatividade não é um fim em si mesmo, uma realidade concreta ou acabada, mas um processo. Ela é uma construção (uma realidade como performance) e reconstrução (reconhecimento intelectual das etapas dessa construção)”.

Os três trabalhos aqui analisados tem como ponto de partida histórias de vida que assumem a forma de monólogo, interpretado pelas mesmas pessoas que viveram os acontecimentos. Escolhas pessoais entram em jogo, entram na cena, passam a fazer parte do filme. A concentração de narrativas em torno do ‘eu’ e da autoexpressão produziu, de acordo com Timothy Corrigan (2015), um dos modos mais proeminentes e onipresentes do filme-ensaio: o ensaio autorretratístico. Fragmentos autobiográficos servem como ponto de partida para a construção de narrativas autorretratísticas. A memória é atualizada, as questões pessoais se expandem e se abrem para indagações mais amplas que ecoam e estabelecem um diálogo de maneira afetiva e efetiva com o mundo.

O corpo, a voz, o texto e as articulações das imagens propostas por cada uma das artistas, abordam suas subjetividades e experiências, e nos fazem, de acordo com Antonio Weinrichter (2015) “pensar a imagem, pensar com a imagem e construir uma imagem pensante”, elementos centrais do filme-ensaio.
Bibliografia

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BIEMANN, Ursula (Editor). Stuff It: The Video Essay in the Digital Age. Zurique: Edition Voldemeer, 2003.



CARLSON, Marvin. Performance – uma introdução crítica. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2010.



CORRIGAN, Timothy. O filme-ensaio – desde Montaigne e depois de Marker. Campinas: Papirus Editora, 2015.



DUBOIS, Phillipe . Catálogo da exposição Movimentos Improváveis- o efeito cinema na arte contemporânea. Centro Cultural Banco do Brasil, 2003.



FÉRAL, Josette. Performance e Performatividade: o que são os estudos performáticos? In MOSTAÇO, E.; BAUMGÄRTEL, S.; COLLAÇO, V. (orgs.). Sobre Performatividade. Florianópolis: Letras Contemporâneas, 2009.



FISCHER-LICHTE, Erika. Estética de lo performativo. Madrid: Abada, 2011



WEINRICHTER, Antonio. Um conceito fugidio. Notas sobre o filme-ensaio. In TEIXEIRA, Francisco Elinaldo (org.). O Ensaio no Cinema. São Paulo: Hucitec, 2015.