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  Título
VARIAÇÕES DA DESMONTAGEM: ARQUITETURA DA TELA EM “PICTURESQUE EPOCHS”
Autor
Patricia Rebello da Silva
Resumo Expandido
A tela como um tabuleiro de montagem sobre o qual imagens de arquivo são dispostas em diálogo e tensionamento é o ponto de partida a partir do qual se desdobra uma reflexão a propósito de “Picturesque Epochs” (2016), de Péter Forgács.

A protagonista deste documentário é Mária Gánóczy. Nascida em 1927, a biografia de Mária e a da história da arte da Hungria se confundem nos inúmeros quadros pintados pela artista e, principalmente, nos milhares de rolos de 8mm de filmes de família e amadores em seu arquivo. Fascinada pelo registro do cotidiano, da vida e seus acontecimentos em suas pequenas e iluminadas insignificâncias, as imagens de Mária falam de resistência e exílio (depois da Primeira Guerra Mundial, a Hungria perdeu cerca de 72% de seu território e 64% sua população diante da postura cada vez mais fascista e antissemita do governo a partir dos anos 1920), mas igualmente de uma graciosidade e leveza fundamentais para sobrevir ao caos. Descendente de uma família de mulheres artistas, cúmplice “fitzgeraldiana” de uma vida inteira do companheiro, o também pintor József Breznay (1916-2012), com quem criou os nove filhos do casal, os filmes e quadros de Mária desdobram ainda mais a multifacetada história de êxodos e chegadas da comunidade artística húngara na primeira metade do século XX.

Os documentários de Péter Forgács, caracterizados notavelmente pela reapropriação de imagens de arquivo de famílias europeias e registros amadores dos cinquenta primeiros anos do século passado, marca de forma emblemática o cruzamento de campos e atravessamento de mídias que se instituem no âmbito das artes e do audiovisual contemporâneos. Assim como Agnés Varda, Jonas Mekas e Jean-Luc Godard (e dos ainda atuais, para sempre saudosos, Harum Farocki e Chantal Akerman), Forgács é um realizador que se concentra na exploração da natureza da imagem, na forma como ela pode ser enunciada, percebida e, ainda mais importante, forjada. Em anos recentes, o diretor também vem investindo na criação de instalações em espaços de galerias e museus. Em “Picturesque Epochs” esse deslizamento por diferentes áreas é ainda mais potencializado pelo uso da tela como superfície de montagem, tornada elemento narrativo ao se concentrar menos no teor dos arquivos do que na reconstituição das condições de visibilidade e legibilidade das imagens. Superfície de escrita, de experimentações de procedimentos de montagem, a tela é desprezada nos limites de espaço sobre o qual se contam as histórias e desdobrada em camadas pelo uso das mais variadas texturas e ferramentas: pinturas, fotografias antigas (por vezes rasgadas, amassadas, remontadas com fita adesiva), filmes de arquivo em 8mm, imagens de cinejornais da época, citações, referencias à literatura e poesia húngaras, documentos escritos à mão e gravações de rádio, bem como entrevistas recentes feitas em registros HD com Mária e József no estúdio de casa, revendo e comentando as imagens em arquivo. “Picturesque Epochs” combina arte, documentos de família, acontecimentos pontuais e viradas icônicas ao longo da extensa, e íntima, saga histórica de Mária Gánóczy.
Bibliografia

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