Voltar para a lista
 
  Título
Marcas receptivas no discurso da crítica nacional sobre filmes "LGBT"
Autor
Katarina Kelly Brito Castro
Resumo Expandido
O crítico, além de mediador também é um espectador (Bamba, 2013; Gomes, 2005; Cunha, 2004): é um sujeito que consome a obra, a aprecia e avalia, interpreta o conteúdo a partir de seu filtro cultural, se configurando assim como um leitor historicamente determinado. A crítica acaba por se configurar também como dispositivo de construção de sentido, que a partir da obra fílmica, carrega as suas próprias significações e deixa vestígios de recepção.

Alguns pesquisadores identificaram na prática crítica essa construção de um discurso que pode ser compreendido historicamente, como Janet Staiger, que investigou os significados culturais produzidos pelos espectadores em torno de uma obra, realizando associações contextualizantes entre as respostas da crítica e elementos extratextuais.

Já algumas teóricas do cinema, influenciadas pelos movimentos sociais de fins de 1960, desenvolveram uma abordagem de pesquisa focada na representação da mulher e dos efeitos desta sobre as espectadoras. A corrente inaugurada por Mulvey (1975), conhecida como crítica feminista do cinema, demonstrou como a indústria cinematográfica era permeada por representações que, realizadas sob um olhar majoritariamente masculino, reproduzia discursos machistas e objetificadores da figura feminina, reforçando o sistema ideológico patriarcal. Um dos ramos dessa crítica se desenvolveu e originou os estudos de gênero e, posteriormente, estudos queer de cinema. Esse viés se torna independente e passa a interrogar as obras fílmicas com relação não apenas às representações do masculino e feminino, de seus papeis, mas muito mais acerca dos conceitos de gênero, entendido como um construto social, e sobre os desejos e expressões sexuais não normativos.

Atualmente tem se observado uma multiplicação das formas de representar esses sujeitos não-heteronormativos e suas relações - com o outro e com a sociedade - nos produtos culturais. No cinema vemos uma pluralização de obras com a temática LGBT em sua narrativa, a criação de protagonistas gays etc. É preciso observar então como se dá a resposta da crítica que, enquanto instância espectatorial, se reapropria dessas obras específicas, produz sentido e constrói um discurso que estará marcado por vestígios de recepção que podem ser lidos historicamente.

Staiger afirmou que os significados culturais não resultariam do texto, mas sim do discurso público. Portanto, considerando a crítica como uma prática que prolonga a experiência fílmica no seio social e constatando a repercussão gerada por O Segredo de Brokeback Mountain (2005) e Azul é a Cor Mais Quente (2013), nos debruçamos sobre as críticas produzidos no Brasil acerca dessas obras a partir de duas categorias: a crítica jornalística veiculada em sites e blogs; e a crítica produzida em espaços online assumidamente identificados com os movimentos feminista e/ou LGBT.

Levamos em consideração e o texto e o contexto, de modo a observar marcas receptivas: os elementos destacados, os modos de leitura empreendidos pelos críticos, os horizontes interpretativos destinados ao leitor-espectador... Além disso, atentamos para as possibilidades de variação discursiva de uma categoria para outra, a partir da influência da identidade do crítico, enquanto sujeito construído, na prática receptiva.

Analisando as duas instâncias críticas, constatamos variações argumentativas de um lugar de fala para outro, e também percebemos a valorização de aspectos relacionados ao conteúdo da obra fílmica em detrimento da forma. Em um cenário onde as práticas sociocomunicacionais se redefinem em ritmo frenético, destacamos como os praticantes da crítica cinematográfica ainda se mostram engajados no exercício de funções como as de pedagogos do leitor-espectador, conduzindo-o por caminhos interpretativos que permitem que obras como as supracitadas não sejam reduzidas a um rótulo ou estereótipos, expandindo seu horizonte de significação e utilizando o texto crítico como ferramenta política e também de militância
Bibliografia

BAMBA, Mahomed. Pré-texto teórico: revisão de alguns modelos de estudos da recepção e

da espectorialidade cinematográficas e audiovisuais. In: BAMBA, Mahomed. A recepção cinematográfica:

teoria e estudos de caso. Salvador, EDUFBA: 2013.

BUTLER, Judith. Problemas de Gênero: Feminismo e subversão da identidade. Tradução

Renato Aguiar. 3. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010.

ESCOSTEGUY, Ana Carolina. Notas para um estado da arte sobre os estudos brasileiros de

recepção nos anos 90. In: MACHADO, Juremir; LEMOS, André; SÁ, Simone Pereira de

(Orgs.) Mídia.Br, Porto Alegre: Sulina, 2004.

GOMES, Regina. A Crítica como Vestígio de Recepção: The West Wing e o Real Histórico.-

Revista Novos Olhares. vol. 2, n.1, 2013.

HALBERSTAM, Judith. Masculinidad Feminina. Barcelona & Madrid: Eagles, 2000.

MULVEY, Laura. Visual pleasure and narrative cinema, Screen 16, 3, 1975.

STAIGER, Janet. Media reception studies. New York: New York University Press,