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  Título
Sexualidade, erudição e moralidade: a censura ao filme Anjo Loiro
Autor
Caio Túlio Padula Lamas
Resumo Expandido
A presente comunicação visa analisar um dos processos de censura mais longevos e emblemáticos de que se tem conhecimento da relação entre o Estado e a pornochanchada. Anjo Loiro, originalmente intitulado Anjo Devasso, foi o segundo longa-metragem dirigido por Alfredo Sternheim, diretor da Boca do Lixo com uma longa trajetória: foi crítico de cinema do jornal O Estado de S. Paulo, continuísta e assistente do diretor Walter Hugo Khouri em A Ilha (1961), diretor de cinema – tem em sua filmografa cerca de 25 longas e 14 curtas – e diretor de televisão. Dirigiu um dos episódios do longa-metragem Memórias da Boca (2015), filme que contou ainda com a direção de outros remanescentes da Boca como Clery Cunha (Pensionato de Mulheres) e José Mojica Marins (Exorcismo Negro, todos os filmes com o personagem Zé do Caixão) e que tem como foco um resgate nostálgico das memórias do polo de produção.

O filme conta a história de Armando (Mário Benvenuti), professor de História de um tradicional colégio que vê sua vida mudar por completo quando começa a sair com a jovem Laura (Vera Fischer, em início de carreira). Jovens e adultos, revolução dos costumes e tradição alternam-se em uma trama que, de um lado, atribui a práticas alternativas de relacionamento – sobretudo o chamado amor livre, a relação aberta entre

parceiros – um certo grau de imaturidade; de outro, critica-se aqueles que valorizam de maneira excessiva a razão, como se ela fosse a resposta para todos os problemas amorosos.

Curiosamente, o filme apresenta um dos casos mais emblemáticos de censura à pornochanchada: seu processo no órgão estatal abrange um período longo de tempo, principiando-se no ano de 1971 e se alongando até 1985. Atravessou com isso diversos períodos da Ditadura Civil-Militar, dos anos de chumbo do General Emílio Garrastazu Médici (1969 – 1974), passando pelo princípio de abertura política do governo do General Ernesto Geisel (1974 – 1979) e culminando com o governo do General Figueiredo (1979 – 1985), que encerrou o período militar.

O processo de censura de Anjo Loiro revelou, de forma similar ao de outros filmes já analisados anteriormente, como um filme despretensioso do ponto de vista político poderia ser alvo sistemático da Censura, não só pelo número elevado de cortes, mas também pela rigorosa fiscalização posterior, que abrangia da unidade central em Brasília até órgãos regionais da Divisão de Censura de Diversões Públicas (DCDP). O processo de Anjo Loiro também mostra a vulnerabilidade dos produtores aos desmandos da Censura, acarretando graves prejuízos para a equipe, ainda mais em se tratando de filmes que dependiam unicamente do retorno de bilheteria para o pagamento de todos seus profissionais.

Similarmente também a outros filmes cujos processos foram analisados, Anjo Loiro teve uma avaliação mais rigorosa ainda para a televisão do que para as salas de cinema, mesmo tendo sido liberado anteriormente pelo órgão federal. A exposição do corpo, sobretudo o feminino, permanecia sendo um problema em meados da década de 1980, mesmo que o final da trama valorizasse a relação estável entre parceiros.
Bibliografia

ABREU, N. C. Boca do Lixo: cinema e classes populares. Campinas: Editora da UNICAMP, 2006.

REIS JÚNIOR, A.; LAMAS, C. A censura ao cinema no Brasil e os percalços de Os Garotos Virgens de Ipanema. Revista Comunicação Midiática: Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, v. 8, ed. 1, 2013.

__________. Embates entre o cinema brasileiro e a censura federal em tempos de redemocratização. In: GOMES, M. R. (org). Comunicação e Controle: observações sobre liberdade, controle e interdição de expressão. São Paulo: Intercom, 2013.

__________. História, Cinema, Censura: silenciamentos e resistência em Pra Frente Brasil, de Roberto Farias. Lumina: Revista do Programa de Pós-graduação em Comunicação. Universidade Federal de Juiz de Fora, vol 8, n. 2, dez 2014.

SIMÕES, I. Roteiro da Intolerância: a censura cinematográfica no Brasil. São Paulo: Editora Senac, 1999.