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  Título
Paulo Leminski e o cinema americano: moral do comportamento e romance
Autor
Maria Cristina Mendes
Resumo Expandido
Quando o governo brasileiro anuncia a transformação do ensino público, o estudo do cinema e do áudio-visual pode ser útil para a reflexão acerca das diretrizes a serem adotadas, pois a desvalorização das ciências humanas e o abandono da capacidade crítica e reflexiva parece ser a norma vigente. Faz-se necessário, portanto, recorrer a pensadores que se opuseram à política vigente, no afã de identificar estratégias para a sobrevivência do ensino da arte cinematográfica, se o almejado é, de acordo com Herbert Read, a formação de pessoas criativas, educadas pelo sensível. Paulo Leminski (1944/1989) é um adepto da contracultura e sua produção literária transita tanto no universo do conhecimento erudito quanto do popular. Foi professor do ensino médio e pode-se notar em sua obra o comprometimento com a educação, pois a produção de arte, em forma de poemas, artes visuais ou cinematográficas, representa uma espécie de arejamento em relação à anestesia dos sentidos. Com o intuito de investigar a contribuição de Leminski para o aprendizado e para os estudos de cinema, recorro a um fragmento de Ervilha da Fantasia - uma ópera leminskiana, documentário dirigido por Werner Schumann, em 1985. O plano sequência escolhido para análise tem a duração de pouco mais de dois minutos, no qual o poeta esclarece que o cinema é uma das grandes paixões de sua vida e que tudo que sabe aprendeu com os filmes americanos, desde o comportamento moral com amigos até o romance com começo, meio e fim. Destaca, ainda, que seus sonhos são dirigidos por cineastas hollywoodianos, complementa que metade da vida é sonhar e conclui que metade da vida, portanto, é cinema americano. Entre a ênfase dada em parecer natural, aprendida com Elia Kazan, e o sonho com Apocalipse de Coppola, o poeta menciona os atores John Wayne, Paul Newman, Marlon Brando e James Dean, cita os diretores Hitchcock, Ford e Frankenheimer. Destaca-se, nesse grupo, a evidente alusão ao suspense, ao western e ao drama romântico, os quais educam a sensibilidade, grosso modo, em termos de medo, conquista de território e de amor. A afeição de Leminski pelo cinema popular, educador do mundo globalizado, permite uma abordagem adequada às questões contemporâneas, quando, na impossibilidade de reverter os processos educacionais hollywoodianos, seria prudente tentar desvendar os mecanismos de implantação da homogeneização cultural. Muito embora a predileção do poeta pelo cinema americano seja a marca do depoimento, o tom irônico que se percebe no filme é enfatizado em “Verdura”, canção de Leminski lançada por Caetano Veloso pouco antes da filmagem de Ervilha da Fantasia, cujo tema é a venda de um filho para uma família americana. Leminski traduziu Ask the Dust, de Ferlinguetti e redigiu um ensaio sobre tal empreendimento, no qual enfatiza a força do cinema norte-americano, que subordina a literatura ao cinema; ao postular que a ditadura das bilheterias substitui a ditadura dos generais, Leminski esclarece que o cinema deve atender ao maior número possível de pessoas, trabalhando com emoções médias, criando uma linguagem média e, consequentemente, uma idade média. Por afirmar que a arte sofre significativas perdas diante de um meio cultural que visa homogeneizar a informação, pode-se estabelecer um paralelo entre Leminski e Teixeira Coelho, para quem a educação deve se pautar por trocas culturais e comunicacionais, processos instáveis que requerem uma visada maleável. No que tange ao conceito de contemporaneidade, o referencial adotado é Giorgio Agamben, cuja análise acerca da compreensão do próprio tempo em que se vive, é estruturada na existência da figura do poeta, que percebe a escuridão de seu tempo e é capaz de enxergar uma luz que sempre se afasta. A contribuiçào de Herbert Read sobre o valor da arte a cerca da educação pela arteAcredito que, com tal aporte teórico, poderá ter início uma gama significativa de possíveis pesquisas sobre a contribuição de Leminski para os estudos cinematográficos.
Bibliografia

AGAMBEN, Giorgio. O que é o contemporâneo? e outros ensaios. Chapecó: Argos, 2012.



LEMINSKI, Paulo. Ensaios e anseios crípticos. Campinas: UNICAMP, 2011.



__________. Toda Poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.



READ, Herbert. A Educação pela Arte. São Paulo: Martins fontes, 2013.



SCHUMANN, Werner. Comunicação on-line. 10 ago. 2009.



__________. Ervilha da Fantasia: uma ópera leminskiana. 1985. Curitiba: apoio cultural Caixa. Naked version 28:09 minutos. Disponível em: . Acesso em: 10 mar, 2017.



TEIXEIRA COELHO, José (org). Cultura e Educação. São Paulo: Iluminuras: Itaú Cultural, 2011.