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  Título
MESHES OF THE ADVENTURE: Diálogos entre Maya Deren e Pendleton Ward
Autor
Janiclei Aparecida Mendonça
Resumo Expandido
Desde o surgimento da primeira animação intitulada Fantasmagorie de Émile Cohl em Paris (1900) o cinema de animação tem percorrido um caminho que – concomitante ao cinema - se entrecruza com técnicas, tecnologias e narrativas cinematográficas, o que pressupõe também a reflexão sobre os hipertextos que perpassam as produções, os sujeitos aos quais são destinadas e seu desdobramento para o que é denominado série de animação. Nesse ínterim, pensar sobre a animação seriada implica compreender – em termos gerais - uma narrativa que se estende por episódios estruturados em tempo e ritmo próprios – diferentemente do cinema de animação – e que hoje é destinada ao consumo diário via televisão ou internet.

Assim, a propósito de dar continuidade à reflexão empreendida sobre a narrativa de séries de animação, o presente artigo tem como objeto de estudo o episódio Is That You? (2014) de Adventure Time (Pendleton Ward, 2006) para a partir do estabelecimento do diálogo com Meshes of the Afternoon (Maya Deren e Alexander Hammid, 1943) verificar a presença hipertextual tanto em relação a forma e conteúdo, quanto a narrativa mitonírica entre as obras. O intuito da discussão é avançar na problemática apresentada sobre o advento de uma narrativa que não se restringe a uma categoria estanque, delimitada, expandindo-se e ultrapassando as possibilidades narrativas atuais e que rompe com a narrativa tradicional a exemplo das obras de Maya Deren.

Para tanto, o estudo se embasa, ainda que brevemente, em obras de autores como Gérard Genette, Adams Sitney, Renato Luiz Pucci Jr., Mircea Eliade, Carl G. Jung, Stuart Hall, Zigmund Bauman, David Harvey e Chistian Metz para traçar um panorama geral desde o atual momento de produção, passando pela questão do mito e do onírico para culminar na análise das obras e primeiras considerações sobre a pesquisa.

Em relação a metodologia, utilizou-se o estudo bibliográfico e a análise textual de Jacques Aumont. No entanto, para facilitar a análise, foi realizada uma descrição geral das obras por cenas para, somente após, estabelecer o diálogo e traçar as aproximações sobre forma e conteúdo entre ambas.

Dessa forma, é necessário discutir, ainda que de maneira geral, sobre a questão da contemporaneidade para que possamos refletir sobre o contexto no qual Adventure Time é produzido e suas possíveis raízes. A partir do exposto, observa-se que o presente cenário de produção não apresenta características fixas e, portanto, verifica-se a proeminência de estilos em detrimento de escolas específicas de criação.

Partindo desse pressuposto, a hipertextualidade torna-se então um fenômeno presente nas obras audiovisuais apontando para o advento de narrativas híbridas, ou seja, que se estruturam a partir de outros textos preexistentes (re)visitando-os, (res)significando-os e tecendo-os em sua malha narrativa. Assim, torna-se necessário um olhar mais atento e pormenorizado em relação às produções audiovisuais, aqui enfatizando as séries de animação na busca da compreensão dos mecanismos narrativos.

Nesse sentido, Adventure Time apresenta-se como uma narrativa que supera o fragmentado amorfo e desconexo para configurar-se em uma série de animação amalgamada à narrativa mitonírica – assim como em Meshes of the Afternoon, ao tratar de questões interiores e universais como amizade, saudade e superação – que, para além de estabelecer conexão entre o espectador e mito via o onírico, (re)introduz numa narrativa de série de animação o retorno à essência, ao primordial, incitando uma nova (ou renovada) maneira de se ler, sentir e refletir o mundo e o “eu”, apesar de se tratar de uma obra audiovisual produzida para ser veiculada comercialmente. Talvez essa seja uma das particularidades que mais chamam a atenção na série. Por fim, se observa que os 71 anos que separam a obra de Deren e Hammid da de Pendleton Ward não se configuraram em obstáculo para o diálogo hipertextual entre ambas as obras.
Bibliografia

AUMONT, Jacques. et all. A estética do filme. 4ª Ed. São Paulo: Papirus, 1995

BAUMAN, Zygmunt. A cultura no mundo líquido moderno. Rio de Janeiro: Zahar, 2013

GENETTE, Gérard. Palimpsestos. A literatura de segunda mão. Belo Horizonte: Edições Viva Voz, 2010

HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Trad. Tomaz Tadeu da Silva & Guacira Lopes Louro. Rio de Janeiro: Lamparina, 2014

HARVEY, David. Condição pós-moderna. São Paulo: Edições Loyola, 1992

JUNG, Carl. G. O homem e seus símbolos. 2ª Ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008

METZ, Christian. A significação no cinema. São Paulo: Perspectiva, 2014

PUCCI JR, Renato Luiz. Cinema brasileiro pós-moderno: o neon-realismo. Porto Alegre: Sulina, 2008

MESHES OF THE AFTERNOON. Maya Deren e Alexander Hammid, 1943. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=Hs6vYjwEIy4

IS THAT YOU? Pendleton Ward, 2014. Disponível em: http://manualenquiridio.com/hora-de-aventura-6-temporada-acorde-episodio-01-dublado/