Voltar para a lista
 
  Título
O Pagador de Promessas e sua recepção crítica
Autor
Luiz Augusto Coimbra de Rezende Filho
Resumo Expandido
Em maio de 1962, a notícia da premiação em Cannes de O Pagador de Promessas, dirigido por Anselmo Duarte, repercutiu positivamente. Apontava-se como o filme vencera concorrentes importantes e como foi enaltecido no festival. houve também declarações sobre o futuro do cinema brasileiro e as “portas abertas” para a produção nacional no exterior.

Mas ao ser transformado em exemplo a ser seguido, o filme acabou sendo recebido com mais dificuldades do que se não tivesse recebido o prêmio. O que, para alguns, deveria ser compreendido como elemento positivo para o desenvolvimento da atividade cinematográfica no Brasil, tornou-se uma razão para crítica para outros. Do lado das críticas negativas, que vieram tanto de setores conservadores quanto dos mais “progressistas”, aponta-se o “academicismo”, a “ambiguidade” ou a artificialidade do filme no tratamento das questões políticas e sociais e da narrativa.

Outro debate que se seguiu dizia respeito ao reconhecimento de O Pagador como exemplo da “renovação” que estaria em curso no cinema brasileiro. Com a divulgação da expressão “Cinema Novo” e a maior evidência do movimento na imprensa entre o final de 1961 e início de 1962, uma variada gama de cineastas de origens e histórias diferentes foi considerada como “Cinema Novo”. O Pagador é compreendido, por alguns, como parte do então jovem movimento, apesar da idade mais avançada do seu realizador. Mas ao ser identificado ao Cinema Novo, acirra-se o debate sobre as delimitações do movimento e a necessidade de se apontarem diferenças entre “tendências” e “autores”. Para Glauber Rocha, o problema estaria na crítica que, por não ter “visão histórica”, “começou a exigir uma escola definida que justificasse o termo cinema novo”. O movimento teria ficado “ligeiramente abalado” pelo fato de filmes de vários tipos terem sido “vestidos” pela expressão e ganharem um sentido de renovação que não teriam por direito.

Outro problema que gerava críticas estava no tratamento dado à temática do filme e à realidade social brasileira: a cultura popular, a situação política do povo, a religião, a oposição entre o mundo urbano e rural, a reforma agrária. Apesar da temática nacional, a mise-en-scene do filme foi considerada clássica, o que tornava fácil sua filiação a filmes que representariam uma tendência industrializante, acadêmica e comercial.

Em artigo de O Metropolitano, Glauber Rocha procura estabelecer linhas divisórias. Em textos de 1961 e início de 1962, Rocha e outros diretores ainda elogiavam obras de autores que agora passaram a fazer parte da “fase morta” do Cinema Novo. Em texto anterior, Rocha cita, ao falar do “Movimento 62” (e não ainda de “Cinema Novo”), O Pagador como parte de um novo movimento de “renovação e reabilitação de veteranos como Anselmo Duarte”. Posteriormente, Duarte passaria para o grupo de cineastas que estariam “preocupados com um cinema espetáculo que dê dinheiro e tire prêmios”, e não no grupo dos que procuravam um cinema que “exprima a transformação da nossa sociedade, comunicando e processando esta transformação” (Rocha).

Para alguns, Anselmo Duarte pertencia legitimamente a uma tendência preocupada com a renovação do cinema brasileiro, pela abordagem “séria” da realidade e das temáticas brasileiras. Podia ser visto, portanto, como um cineasta politicamente afinado, pelo menos, com as tendências progressistas e/ou reformistas que então ganhavam força. No entanto, a narrativa tradicional, clássica, era inaceitável para os defensores de uma ruptura estética mais profunda com o cinema da tradição dos estúdios. Por este motivo, o prêmio acirrava as disputas entre os filmes que “falsamente” fossem identificados como Cinema Novo. Neste debate, as diversas similaridades e proximidades foram mais frequentemente ignoradas e apagadas, enquanto as diferenças foram ampliadas e aprofundadas. De forma bastante clara, os debates em torno de O Pagador revelaram a cisão estética e política que já vinha se preparando há anos.
Bibliografia

RAMOS, F. (org.) História do Cinema Brasileiro. São Paulo: Art Editora, 1990.

ROCHA, G. Revisão Crítica do Cinema Brasileiro. São Paulo: Cosac & Naify, 2003 (1963).