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  Título
O cinema autodocumental: revisão crítica de uma época.
Autor
Candida Maria Monteiro
Resumo Expandido
Talvez o que mais chame atenção nas autobiografias fílmicas, corrente do documentário que se fortalece a partir da década de 1960, seja a inquietação que move seus autores a realizar uma revisão crítica do passado. Recontar fatos ocorridos expressa, sobretudo, o desejo de lançar um olhar crítico sobre a sociedade e a cultura de uma determinada época.

Ao revisitarem fatos acontecidos no cotidiano privado, as obras confessionais recuperam a estética e o imaginário de um momento. E vão além: o autorretrato promove a ressignificação de imagens que, em última instância, realiza necessariamente uma revisão crítica do mundo. Seria possível dizer que esses ensaios fílmicos se confundem com a crítica cinematográfica. Se de um lado a crítica exerce o papel de interpretar e contextualizar as obras artísticas, de outro, o autodocumentário pratica uma escrita reflexiva, que interpreta e constrói. Sendo assim, a hipótese colocada aqui é a de que o documentário autobiográfico se confunde com a crítica cinematográfica, realizando uma crítica profunda da sociedade e do imaginário de período histórico. Ao contrário das chamadas formas resenhistas, que ficam presas à forma do filme; não são capazes de apontar caminhos linguísticos nem novas estéticas, a ressignificação amplia as possibilidades artísticas.

O dispositivo utilizado na ressignificação fílmica tem origem na vanguarda artística do começo do século passado: a collage - utilizada por Braque e Picasso. Ou ainda na ressignificação praticada por Duchamp, que ao alçar objetos prosaicos à categoria de obra de arte, lança um olhar irreverente no campo das artes visuais. O found footage recorre a sobras de materiais que a Indústria Cultural produz em excesso. A reciclagem das imagens privadas cria novas versões para a história oficial, atravessando a cena política e social. Meros registros domésticos, originalmente acríticos, com o tempo são potencializados e transformados em imagens reveladoras de comportamentos. Cabe a pergunta: o que acontece quando as imagens são retiradas de contexto, utilizadas de forma a alterar a ordem pré-concebida ou determinada anteriormente?

O artigo traz o primeiro trabalho do realizador nova-iorquino Alan Berliner, The Family Album (1998), para discutir a crítica realizada através da collage. Berliner levou 10 anos editando imagens domésticas captadas em 16mm, rodadas por famílias anônimas entre os anos 1920 e 1950. Compõe, desta forma, um painel crítico da formação das famílias americanas no período em que os Estados Unidos entram na fase de depressão até a sua escalada, quando a nação consegue se reerguer, ao final da Segunda Guerra Mundial, despontando no cenário mundial como uma superpotência.

Em The Family Album, a crítica à sociedade americana emerge, sobretudo, da utilização predominante da contradição. A hipocrisia das famílias vem à tona, por exemplo, em uma sequência significativa. Numa edição ágil somos apresentados às festas de diversos matrimônios de desconhecidos. As cenas de casamentos mostram a celebração do amor: o ritual da comemoração está presente no arranjo da mesa, na partilha da comida e da bebida, no modo como as pessoas estão vestidas, na dança, na felicidade demonstrada por familiares e convidados reunidos para a cerimônia. Em contraponto à excessiva felicidade das cenas de casamento, o áudio da sequência traz relatos de fracassos das famílias. A locução em off fala do sofrimento provocado pelas brigas e separações. Os depoimentos revelam a dor de pais, filhos e avós que nada podem fazer para reatar a união desfeita.

Tal descompasso evidencia o potencial das imagens de arquivo, que se abrem para um território fértil em sentido, possibilitando a criação de um texto crítico.

A partir da projeção de trechos selecionados em The Family Album, o artigo apresenta pontos de encontro entre a crítica cinematográfica e a ressignificação, formas que seguem juntas em busca de descobertas linguísticas e estéticas no campo audiovisual.
Bibliografia

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