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  Título
David Neves: senso de concretude na transmissão da crítica moderna
Autor
Pedro Plaza Pinto
Resumo Expandido
Presença aglutinadora, mais afeita a ouvir do que a falar, Neves notabilizou-se pela excentricidade em meio a personalidades turbulentas do período gregário do Cinema Novo. Poderia ser colocado talvez avizinhado em estilo ao de Joaquim Pedro de Andrade, uma de suas grandes influências, pela admiração e amizade. Sobretudo, resistia às conclusões fáceis, ao pensamento desenvolvido sem esforço, ao lugar-comum de uma integralização narrativa, à valorização da sua personalidade. Preferia a lacuna ao relato sem falhas. Observador arguto, bom ouvinte e escritor de talento, Neves foi reconhecido como o melhor cronista do Cinema Novo.

“Guimarães Rosa e o cinema” foi o último texto publicado por David Neves no Suplemento Literário do jornal O Estado de S. Paulo, em janeiro de 1968. Tendo por motivo a morte de Guimarães Rosa, o crítico rememora o contexto no qual conheceu o escritor nos corredores do Itamaraty, durante os preparativos para a V Resenha do Cinema Latino-Americano em Gênova,65, onde se realizaria o Congresso sobre o Cinema Novo brasileiro, com a presença de Glauber Rocha, Cacá Diegues, Paulo César Saraceni e Gustavo Dahl. A timidez do jovem e a “mineirice” do escritor limitaram o contato a conversas sobre Diamantina-MG. A narração dá um salto para o futuro, para a época de preparação de Terra em transe, em outro encontro, novamente em Brasília, no qual David Neves informou a Rosa o título definitivo da fita. A desaprovação do escritor foi seguida de um conselho: “’Diga ao Glauber que Deus está no detalhe’”. Sem contar quando, onde, ou mesmo se transmitiu o conselho, o jovem crítico diz que o conselho nunca o abandonou e o articula com a recomendação de Salles Gomes que permeia, segundo Neves, todas as suas considerações sobre o cinema brasileiro, de se fazer filmes sobre “coisas e não sobre idéias”. (NEVES, 2004, 319).

No mesmo necrológio, David Neves traz as palavras do artigo “O homem dos avessos”, presente no livro Tese e antítese, de Antonio Candido, que conteria a “chave do caráter cinematográfico de Guimarães Rosa”(CANDIDO, 2006, 112)”. Não nos interessa a questão em si, mas a ênfase na idéia de “lastro de realidade” como “plataforma”, uma boa síntese do artigo de Candido sobre o procedimento fundamental do autor de Sagarana. O mesmo artigo do eminente crítico literário foi utilizado por David Neves na exposição da sua tese “Poética do Cinema Novo”, publicada dentro do livro Cinema Novo no Brasil. Neves cita Candido para se perguntar, a propósito da personagem Antonio das Mortes, se ele não seria o modelo de “‘homem diferente’” de Grande: Sertão Veredas, “‘composto de deformação dos modelos reais’” (1966, 26). Plataforma do real e salto no imaginário: são os dois tempos da inspiração “roseana”, segundo a tradução de Candido.

Aqui, estamos lidando com a elucidativa interpretação de Antonio Candido que vale reproduzir, já que será também utilizada por Paulo Emilio nas notas da sua apresentação em reunião da UNESCO, justamente para abordar as apropriações literárias do Cinema Novo: “A experiência documentária de Guimarães Rosa, a observação da vida sertaneja, a paixão pela coisa e pelo nome da coisa, a capacidade de entrar na psicologia do rústico, tudo se transformou em significado universal graças à invenção [...] mostrando que o pitoresco é acessório e que na verdade o Sertão é o Mundo.” (CANDIDO, 2006, 112)

“Paixão pelas coisas e pelo nome das coisas”. A nota consta do fólio “I” do mencionado documento “Roteiro p/ UNESCO”, manuscrito por Paulo Emilio, no trecho cujo título é “Glauber e Euclides”. A leitura não permite concluir que o crítico utilizou os pressupostos de “O Homem dos avessos” para entender Deus e o diabo na terra do sol, mas, talvez guiado pela referência de David Neves, dispôs-se a raciocinar de acordo com eles, inserindo a referência a Candido entre a descrição e interpretação do filme de Glauber Rocha e de Macunaíma, de Joaquim Pedro de Andrade. O discípulo David orientou o mestre Paulo Emilio?
Bibliografia

AUGUSTO, Sérgio. David Neves vê o cinema da mesa de um bar. In.: Folha de S. Paulo, Caderno Ilustrada, 18 nov. 1993, p. 5-11.

CANDIDO, Antonio. O Homem dos avessos. In.: Tese e antítese. Rio de Janeiro: Ouro sobre azul, 2006.

GOMES, Paulo Emilio Salles. Roteiro p/ UNESCO. S.l., 12 f. Manuscrito. Cinemateca Brasileira (PE/PI. 0516). S. d.

GOMES, Paulo Emilio Salles. Crítica de cinema no Suplemento Literário. v. 2. Rio de Janeiro : Paz e Terra, 1982.

NEVES, David Eulálio. Telégrafo visual: crítica amável de cinema. São Paulo : Editora 34, 2004.

NEVES, David Eulálio. 1983: David Neves (Entrevista). In.: VIANY, Alex. O processo do Cinema Novo. Rio de Janeiro : Aeroplano, 1999.

NEVES, David Eulálio. Cartas do meu bar. 1ª ed. São Paulo: Editora 34, 1993.

NEVES, David Eulálio. Introdução. In.: GOMES, Paulo Emilio Salles Gomes Crítica de cinema no Suplemento Literário. v. 1. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982.

NEVES, David Eulálio. Cinema Novo no Brasil. Petrópolis : Editora Vozes, 1966.