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  Título
Uma luz sobre O Pátio, uma análise do curta-metragem de Glauber Rocha
Autor
George Rocha Holanda
Resumo Expandido
A obra de Glauber Rocha é um tema que já rendeu muitos escritos. Seus filmes motivam até hoje estudos que já resultaram numa vasta produção, tanto acadêmica, como informal. Apesar disso, talvez não seja de se estranhar que diante de um amplo conjunto de filmes, algumas obras tenham atravessado o tempo com menos destaque aos olhos da crítica, como é o caso de O Pátio (1959), seu primeiro curta-metragem, realizado ainda na Bahia.



Numa pesquisa pela bibliografia que trata de Glauber Rocha pode-se perceber que uma pequena quantidade fala desse filme. E quando trata do assunto destina apenas breves passagens ao tema. Nos sites especializados em cinema, responsáveis por periódicos de destaque, como o Cultura Visual, o Cultura Midiática e o Rebeca, não se pode encontrar nenhum material sobre O Pátio, e mesmo no Banco de Teses e Dissertações da Capes, ou pela busca do Doc Online, apesar de muitos escritos sobre Glauber Rocha, há poucas menções à O Pátio, e nenhuma obra cujo tema principal seja este filme.



Além disso, as análises que existem acabam por partilhar da mesma compreensão sobre O Pátio. Ao longo do tempo se construiu o entendimento de que o filme teve forte influência do neoconcretismo, tendo ele preocupação eminentemente formal. Para Cláudio Costa o filme exalta a impotência da forma vazia (COSTA, 2000, p. 40), ao passo que Ismail Xavier aponta que a câmera de Glauber Rocha "se expõe e assinala que o drama também se inscreve na forma, como era próprio ao cinema moderno. Cinema de poesia, câmera em movimento, ora em conjunção ora em disjunção com a "mise-en-scène" (XAVIER, 2001). Sylvie Pierre comenta que a obra possui uma preocupação com o filme puro (PIERRE, 1996).



Percebe-se, portanto, que as análises indicadas possuem diversos pontos em comum, como a forte influência do movimento neoconcreto e o esvaziamento de qualquer preocupação além da forma. E não é que filme não guarde relação com o movimento neoconcreto, mas ele guarda discussões que vão além da forma. Pode-se ver em O Pátio uma discussão do humano que se encontra presente em toda a obra de Glauber Rocha, apenas trabalhada de forma mais simbólica neste curta, considerando que o mesmo se utiliza de uma narrativa não pautada na fala, mas que apresenta discussões recorrentes em seu trabalho. E se o filme possui um caráter formal, o mesmo não afasta leituras para além dele, não se podendo limitar as metáforas encontradas a partir da forma (SCHAPIRO, 2001).



O ladrilho quadriculado encontrado no pátio representa a mesma dicotomia que Glauber Rocha evita na sua visão de mundo. Um homem que é mais que os limites impostos a ele, daí o sofrimentos e angústia das duas figuras do filme, enquanto presas àquele ambiente sem paredes, sufocadas na perspectiva de um mundo preto-e-branco. As bananeiras ao redor do pátio marca a busca de Glauber por encontrar este Brasil real, com suas contradições, e por isso mesmo, rico. A visão deste cineasta se encontra tão presente e supera a própria polaridade tão presente até os dias de hoje.



Diante disso, busca-se uma análise que traga uma nova visão da obra, conjugando elementos diversos além do parâmetro neoconcreto imposto até então e considerando sua reinserção nas realizações de destaque de Glauber Rocha. Desse modo, procura-se afastar a ideia do filme como uma produção apartada das demais do autor, seja por não integrar a “estética da fome”, seja por ter sido produzido numa fase ainda inicial do autor. Pretende-se, enfim, lançar uma nova luz sobre este pátio.
Bibliografia

AUMONT, J. & MARIE, M. A análise do filme. trad. Marcelo Felix. 3. ed. Lisboa: Edições Texto & Grafia, 2013.

COSTA, C. Cinema Brasileiro (anos 60-70): dissimetria, oscilação e simulacro. Rio de Janeiro: Editora 7 Letras, 2000.

DONDIS, D. A. Sintaxe da linguagem visual. trad. Jefferson Luiz Camargo. 3. ed. São Paulo: M. Fontes, 2007.

GULLAR, F. Teoria do não-objeto, 1960.

METZ, C. Linguagem e cinema. São Paulo: Perspectiva, 1980. (Coleção Debates).

PIERRE, S. Glauber Rocha. Glauber Rocha. São Paulo: Papirus, 1996.

SCHAPIRO, M. A dimensão humana na pintura abstrata. São Paulo: Cosac Naify, 2001.

VANOYE, F. e GOLIOT-LÉTÉ, A. Ensaio sobre a análise fílmica. São Paulo: Papirus, 1994.

XAVIER, I. Sertão mar: Glauber Rocha e a estética da fome. São Paulo: Cosac Naify, 2007.

__________. O drama barroco de Glauber Rocha. Folha de São Paulo. São Paulo, 22 ago. 2001. Disponível em: . Acesso em: 02 fev. 2017.