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  Título
Otto e Elena: reciclagens do cinema doméstico no filme-ensaio
Autor
Rafael de Almeida
Resumo Expandido
Nossa reflexão centra-se em dois filmes brasileiros contemporâneos, Otto (Cao Guimarães, 2012) e Elena (Petra Costa, 2012), para buscar compreendê-los a partir das relações entre o filme de família e o filme-ensaio, investigando as consequências da adoção de uma linguagem ensaística em filmes contemporâneos que giram em torno ao contexto familiar dos diretores. Nos interessa especialmente o fato de que nos dois filmes reconhecemos o uso de filmes domésticos herdados da família dos diretores como material de arquivo.

Otto e Elena foram bem sucedidos no circuito de festivais de cinema brasileiro e internacional. Sinal disso foi a participação de ambos no 45º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, em 2012, quando Otto recebeu os prêmios de melhor filme, melhor fotografia, melhor trilha sonora e melhor som; enquanto Elena alcançou a melhor direção, melhor montagem, melhor direção de arte e melhor filme (júri popular). No entanto, apesar da importância que aparentam ter para o cinema brasileiro recente, pouca fortuna crítica receberam dos estudos de cinema, e talvez nenhuma no recorte proposto por essa pesquisa.

Considerando o encontro relacional entre o filme-ensaio e o cinema doméstico, bem como as aproximações provenientes dele promovido pelo nosso corpus; o problema de pesquisa a que nos dedicamos questiona de que forma a adoção de uma linguagem ensaística em Otto e Elena se relaciona com a noção de filme de família, intrínseca às obras, e quais os desdobramento de tal relação. Além disso, interroga que tipo de transformação esses filmes-ensaio operam nos arquivos domésticos herdados de sua família.

Trabalhamos com a hipótese de que a linguagem ensaística assumida pelas obras opera uma dupla reciclagem nos filmes domésticos: por um lado, estrutura narrativamente esses arquivos, dando um novo significado aos mesmos; e, por outro, converte a natureza íntima e privada dessas imagens em parte de um filme de projeção pública.

Para a análise das obras realizaremos um estudo estilístico-temático de cada filme, para, em seguida, propor uma análise comparativa interessada em compreender os mecanismos gerados por cada filme ao manejar esses arquivos familiares como fragmentos para dar a ver diferentes formas de relação entre o eu e o outro, o pessoal e o coletivo, o privado e o político. Otto e Elena são filmes-ensaio que se aproximam e se distanciam pela temática e olhar que envolve cada um deles: a chegada de Otto, pelo pai Cao Guimarães; e a partida de Elena, pela irmã Petra Costa. Nos dois casos, essa reciclagem do arquivo doméstico pela estética ensaística do cinema contribui, a partir de uma chave autobiográfica, para a reflexão sobre aspectos da condição humana. Pensamos que se por um lado Elena nos revela como ressignificar a vida através da morte, Otto faz o movimento inverso, a ressignifica por meio do nascimento.

Pretendemos em um primeiro instante relacionar a noção de fragmento com o conceito de filme-ensaio, para logo em seguida refletir sobre o papel do espectador nesse contexto. Com esse plano de fundo em vista, partiremos para uma compreensão das múltiplas relações que o nosso corpus estabelece com a concepção de filme de família. Tendo feito isso realizaremos uma análise fílmica das obras, centrada nos procedimentos de montagem utilizados pelos filmes ao reciclar arquivos domésticos herdados da família dos diretores como material de arquivo.
Bibliografia

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