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  Título
A duração serial: Satie, Cage, Warhol
Autor
Hermano Arraes Callou
Resumo Expandido
Em 1963, John Cage produziu a primeira performance pública de Vexations no Pocket Theatre em Nova Iorque. Vexations é uma peça musical notadamente simples e repetitiva, composta por Erik Satie em 1893, constituída apenas por um único tema repetido nada menos que 840 vezes. Doze músicos revesaram o piano durante a apresenção de 1963, que chegou a durar 18 horas. Entre os espectadores presentes no concerto até o final, estava Andy Warhol. No mesmo ano, Warhol realizaria seus primeiros filme longos, como o célebre Empire. O procedimento da repetição serial já possuia uma história conhecida na obra de Warhol, mas a partir de seus experimentos com o cinema a repetição deixa de acontecer simultaneamente no espaço, como era o caso de suas serigrafias, para se dar sucessivamente no tempo. Empire é um único plano fixo de 485 minutos, virtualmente estático, que mostra o topo do Empire State Building do início do anoitecer até manhã do dia seguinte, sem maiores acontecimentos. John Cage e Andy Warhol, partindo de problemas artísticos distintos, parecem ter encontrado em Vexations de Satie um procedimento duracional em comum. A proposta desta apresentação é um experimento de pensamento: podemos partir da homologia no plano da estrutura entre a performance de Vexations e a projeção de Empire para atingir uma analogia no plano das ideias estéticas? Podemos imaginar, grosso modo, um Warhol zen e um Cage pop? A nossa análise pretende se focar na categoria do tédio, enquanto conceito transversal aos três artistas citados.



A experiência de repetição duracional de Vexation e de Empire induziriam, naturalmente, a um intenso estado de tédio. O tédio, “misterioso e profundo”, como disse Satie (apud Nyman, 1973, p. 1229), era para Warhol um estado a ser conquistado e não evitado."I like boring things", declarou certa vez (Warhol, 2006, 50), fazendo eco a uma outra declaração sua, que a completamenta: "everything is interesting" (apud Goldsmith, 2004 p.187). Uma posição análoga a respeito da indiferenciação entre o interessante e o entediante germina em John Cage, como podemos nos lembrar em sua breve instrução para gozar o tédio: “se algo é entendiante depois de dois minutos, tente por quatro minutos. Se ainda é entendiante, tente por quatro. Se ainda é chato, tente oito. E depois dezesseis. E depois trinta e dois. Eventualmente você descobre que não era entendiante de modo algum” (Cage, 1973, p.93). O desejo de afirmar a experiência do tédio não era, portanto, estranha a nenhum dos três artistas. A articulação entre a repetição, a duração e o tédio instala um plano em que as duas obras podem ser comparadas, diferenciadas e metamorfoseadas uma na outra.
Bibliografia

BENJAMIN, Walter. Obras Escolhidas I: Magia e Técnica, Arte e Política. São Paulo: Brasiliense, 2012.

CAGE, John. Silence: Lectures and Writings. Middletown: Wesleyan University Press, 1973.

DELEUZE, Gilles. Diferença e Repetição. São Paulo: Graal, 2009.

FLATLEY, Jonathan. Allegories of Boredom. In: GOLDSTEIN, Ann (ed).A Minimal Future. Art as Object 1958-1968, exhibition catalogue, Cambridge/Los Angeles: MIT Press and Museum of Contemporary Art, 2004.

GOLDSMITH, Kenneth (ed). I'll be your mirror: the selected Andy Warhol interviews. Nova Iorque: Da Capo Press, 2004.

NYMAN, Michael. Cage and Satie. The Musical Times. Vol. 114 n. 1570, dec. de 1973.

REMES, Justin. Motion(less) Pictures: the Cinema of Stasis. New York: Columbia University Press, 2015.

WARHOL, Andy. A Filosofia de Andy Warhol. Rio de Janeiro: Cobogó, 2008.

_________. Popism: The Warhol's Sixties. Nova Iorque: Mariner Books, 2006.