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  Título
Entre documentário e ficção, a encenação no cinema brasileiro
Autor
Elizabeth Maria Mendonça Real
Resumo Expandido
A relação entre teatro e cinema é antiga e vem sendo estudada com frequência ao longo do tempo, desde a frontalidade da câmera característica do primeiro cinema ao distanciamento brechtiano e artificialismo característicos de filmes que rompem com o realismo. As adaptações de peças de nossos dramaturgos mais conhecidos, como Nelson Rodrigues e Plínio Marcos, ou ainda o caráter performático de filmes mais experimentais expõem as relações entre cinema brasileiro e teatro que têm sido analisadas por críticos e pesquisadores.

O interesse desta pesquisa é perceber, na relação entre teatro e cinema, modos de interação que desvelem proximidades e diferenças no processo criativo de ambas as formas de expressão, e que permitam entrecruzar instrumentos de análise, percebendo como as trocas efetuadas são impactadas pelo contexto cultural e artístico mais amplo. Partindo da noção ampla de encenação no universo teatral como passagem de um texto ao palco, de um “pôr em jogo” que se estabelece a partir das relações entre diversos criadores que atuam juntos, tenta-se flagrar como se dá o processo de construção, suas referências e modos de interação.

Nesse sentido, parte-se da análise de filmes que acompanharam montagens teatrais, num registro que mescla o domínio documental, ficcional e ensaístico. Os filmes têm enfoques diferentes mas abordam a questão central que interessa a este trabalho: o processo de criação e o trabalho artístico na construção de um filme/peça/espetáculo. Trata-se de um processo dialógico que envolve criadores, meios e linguagens. É interessante, para além do aspecto formal, perscrutar qual o sentido que se pretende construir e, em especial, qual o papel reservado ao espectador nesse processo que envolve arte, trabalho criativo e questões existenciais. A análise da construção desses filmes será conduzida de forma a perceber diferenças e proximidades nas escolhas estilísticas dos criadores ao se depararem com a reflexão sobre o fazer artístico, seja ela realizada no enfrentamento do palco, no face-a-face com o espectador ou no diálogo entre as diversas instâncias artísticas que atuam conjuntamente.



Serão analisados filmes como Moscou, de Eduardo Coutinho (2009), A falta que nos move, de Christiane Jatahy (2009), Mentiras sinceras, de Pedro Asbeg (2011), Olmo e a gaivota, de Petra Costa e Lea Glob (2015) e Em três atos, de Lúcia Murat (2015). Este último difere do restante por não ter como referência uma peça teatral e, sim, um espetáculo de dança. No entanto, fragmentário e ensaístico, ele é também revelador do processo criativo construído a partir de múltiplas fontes ao apresentar um entrelaçamento de referências originárias da literatura e da dança potencializadas pela abordagem cinematográfica na exploração do quadro, do movimento, da voz e dos ruídos, da luz e das expressões dos atores.
Bibliografia

AUMONT, Jacques. O cinema e a encenação. Lisboa: Texto e Grafia, 2008.

BAZIN, André. O cinema. Ensaios. São Paulo: Brasiliense, 1991.

O realismo impossível. Belo Horizonte: Autêntica, 2016.

BORDWELL, David. Sobre a história do estilo cinematográfico. Campinas, SP: 2013

Figuras traçadas na luz. A encenação no cinema. Capinas, SP: Papirus, 2008 (Coleção Campo Imagético).

OLIVEIRA Jr. Luiz Carlos. A mise em scène no cinema. Do clássico ao cinema de fluxo. Campinas, SP: Papirus, 2013.

THANOULI, Eleftheria. Post-classical cinema. An international poetics of film narration. London & New York: Wallflower Press, 2009.