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  Título
Faceless, reapropriação de imagens de câmeras de vigilância no cinema
Autor
Viviana Echávez Molina
Resumo Expandido
Em meados da década de 2000 surge em Londres, a cidade mais vigiada do mundo, um coletivo de cineastas que propõe dispensar o uso de câmeras na realização de seus filmes. Questiona-se a utilização de câmeras adicionais quando já existe grande quantidade de câmeras de vigilância espalhadas pelas cidades. Através de um manifesto, os CCTV Filmmakers propõem a reapropriação de imagens captadas por câmeras de vigilância para a realização de filmes e oferecem um método para fazer as manobras legais que permitam obter essas imagens.

O filme emblemático do coletivo é Faceless (UK, 2007) de Manu Luksch. Com a intenção de “olhar àqueles que nos olham”, durante cinco anos a diretora austríaca radicada na Inglaterra, empreende o projeto Faceless, cuja culminação seria um filme realizado exclusivamente com imagens obtidas de câmeras de vigilância em Londres.

Amparada na Ata de Proteção da Informação (Data Protection Act) nas leis inglesas, e depois de um longo processo burocrático, a diretora consegue obter imagens de múltiplas câmeras de vigilância da cidade de Londres cumprindo duas condições fundamentais: ela tem que aparecer nas imagens e tem que preservar o anonimato das outras pessoas presentes em ditas imagens. Assim sendo, a limitação vira o recurso narrativo mais importante do filme. A preservação da identidade das outras pessoas que aparecem no filme é conseguida com o efeito visual de colocar um balão preto sobre seus rostos, de modo que o único personagem que possui rosto é a diretora que é a protagonista do filme. A partir destas imagens que constituem um registro da realidade, a diretora conta a história de uma sociedade de pessoas sem rostos condenadas a viver em um perpétuo tempo presente, sem memória nem antecipações. Em forma de distopia, Manu Luksch nos leva a conhecer um mundo infernal onde o controle das emoções dos cidadãos é total porque todas suas ações estão constantemente monitoradas pela 'Nova Máquina', a síntese de todas as câmeras de vigilância existentes.

O processo de reutilização de imagens anteriormente produzidas por outros com propósitos diversos marca as expressões artísticas contemporâneas e o cinema não é a exceção, especialmente o cinema documentário e experimental. Guiados pelo conceito de Pós-produção de Nicolás Bourriaud (2009), pretendemos analisar as estratégias estéticas usadas por Manu Luksch no tratamento de imagens de vigilância. A partir da análise do filme, nos adentraremos na chamada retórica do índice temporal que domina a narrativa de imagens provenientes de câmeras de vigilância e estabeleceremos uma relação com dois conceitos fundamentais da pesquisadora Catherine Zimmer (2015), o cinema de vigilância e a documentação compulsiva.
Bibliografia

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