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  Título
Registros híbridos:uma análise dos filmes O Som ao Redor e Recife Frio
Autor
Carlos Eduardo Japiassú de Queiroz
Resumo Expandido
O ensejo deste trabalho é o de analisar os filmes “O Som ao Redor” e “Recife Frio”, do diretor pernambucano Kleber Mendonça Filho, na tentativa de acrescentar um comentário crítico, ao tempo em que nos somamos à conclamação geral, no Brasil e fora, das opiniões a seu respeito. Neste sentido, partiremos da seguinte indagação: dada a aparente simplicidade dos filmes, como eles conseguiram criar uma recepção\espectoraliedade tão intensa? Mesmo acreditando ser impraticável a separação entre forma e conteúdo, intentamos realizar a análise dos filmes em duas partes distintas: a primeira centrar--se-á na concepção narrativa do filme, contemplando uma das características formais e/ou estruturais da obra; tratar-se-á, assim, da escolha do diretor por dois tipos de registro, digamos, qualitativos, no modo de tratamento da opção narrativa: um relacionado ao documental, e o outro à dimensão diegético-narrativa da obra, ou seja, vinculada à matéria narrada, à história propriamente dita, concatenada através de um enredo. Já na segunda parte, focalizaremos a questão do crescimento urbanístico desenfreado da cidade representada nos filmes, com os consequentes problemas sociais e humanos associados a ele.

Ressaltando que, na cidade do Recife, cenário e paisagem das duas produções, as leis e as normativas municipais de construção urbanística negam a necessidade integradora dos espaços públicos e privados e estimulam e autorizam uma forma segregadora de se construir a cidade. Os filmes “Recife Frio” e “O Som ao Redor” tanto abordam este descompasso urbanístico que realmente ocorre na cidade, quanto apresentam suas consequências e tensões sociais derivadas desse descompasso. Os problemas urbanos passam assim a serem protagonistas nesses enredos. A segregação espacial exposta nos filmes Som ao Redor e Recife Frio, suas tensões e narrativas, expõe a fragilidade dos seus personagens, habitantes e usuários de um espaço que foi moldado para possuir uma arquitetura separada por muros, que alimenta diferenças sociais e não fortalece as semelhanças, que induz à locomoção automotiva e à especulação imobiliária, e que pouco resta como elemento comum e de possível identidade urbana e humana.

Assim, através deste trabalho, realiza-se uma abordagem dos dois filmes ,produzidos respectivamente em 2009 e em 2013, os quais expõem a problemática da transformação urbana da cidade do Recife, capital do estado de Pernambuco, na região Nordeste do Brasil. Deste modo, nossa análise objetivará nos filmes a construção de suas estruturas narrativas, assim como a proposta de seu conteúdo representacional, afirmando, deste modo, o diálogo entre o cinema e a arquitetura da cidade. Outrossim, afirmamos o ponto de vista de que se trata de obras que miscigenam os gêneros ficcional e documental de forma bastante original e criativa. Por fim, observamos que os filmes receberam vários prêmios e menções honrosas em diversos festivais de cinema, tornando-se representativos de uma marcante estética associada aos filmes realizados no cerne do dito Cinema Pernambucano, o qual tem se colocado de grande importância no conjunto do Cinema Brasileiro nas últimas três décadas.
Bibliografia

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Ramos, Fernão, org. Teoria Contemporânea do Cinema – Vol. 2, Editora Senac, São Paulo, 2011.



Recife Frio. De Kleber Mendonça Filho. Brasil. Cinemascópio Filmes. DVD, 2009.



Som ao Redor. 2013. De Kleber Mendonça Filho. Brasil. Vitrine Filmes. DVD, 2009.