Voltar para a lista
 
  Título
Devaneios de um caminhante solitário: o homem das multidões.
Autor
Consuelo Lins
Resumo Expandido
Trata-se de discutir as conexões de O homem das multidões (2013) com o conto homônimo de Edgar Allan Poe no qual o filme se inspira, escrito em 1840. A breve narrativa do escritor americano identificou na Londres da primeira metade do século XIX um tipo de solidão urbana e modos de flanar pela cidade que marcarão gerações de artistas e pensadores dali por diante – Baudelaire entre os primeiros, tradutor do conto para o francês. Depois de filmar uma solidão “estática” em A alma do osso (2004), Cao Guimarães quis registrar o que chama de “solidões em movimento” em Andarilho e, por fim, uma solidão urbana na cidade de Belo Horizonte. A chamada “trilogia da solidão” faz, no entanto, um recorte particular em uma dimensão central na obra do mineiro, seja nas próprias experiências cotidianas do artista - matéria dos seus curtas e fotos -, seja nos indivíduos solitários de Rua de mão dupla (2002), nas viagens solitárias pelo Brasil do protagonista de Ex-isto (2010) ou nos vários momentos de solidão de Acidente. “Solidão - diz o artista - é fundamental para a existência, acho que sem solidão ninguém consegue viver, mas as pessoas estão desaprendendo a ficar só. (...).”



Condutor de trem no metrô da cidade, o personagem Juvenal, em O homem das multidões, é um misantropo que aplaca suas angústias em lugares cheios de gente, seja nas ruas e praças da cidade, nas galerias comerciais, nos bares em que se alimenta ou nos corredores do metrô. Usufrui de um certo prazer na relação com o tecido sensível da cidade de Belo Horizonte, achando graça do que fazem as pessoas: “(…) voir le monde, être au centre du monde, et rester caché au monde, tels sont quelques-uns des moindres plaisirs de ces esprits indépendants (…)” . Não se trata de um velho, como no conto, tampouco possui aparência sinistra. É um personagem que transita entre a figura descompromissada e ociosa do flâneur, um indivíduo auto-reflexivo e observador do mundo a caminhar pelas ruas de Paris descrito por Baudelaire e o personagem associal a atravessar a soturna Londres em meio a multidão, incapaz de ficar sozinho, narrado por Poe.



Discutiremos ainda nessa comunicação a riqueza formal do filme, a começar pelo impacto sensível provocado por sua forma quadrada, que altera o recorte espacial da imagem e tem como efeito primeiro colocar o espectador em um estado de percepção aguçada, fazendo-o ficar mais atento ao que acontece no interior desse inusitado quadro. Um gesto ousado dos cineastas que enfatiza algo que, na maioria das vezes, o cinema nos faz esquecer: a arbitrariedade da forma retangular do cinema - raramente mexida - e a possibilidade de outros modos de filmar o mundo. Veremos que não se trata de um gesto que visa apenas a desconstrução de uma convenção, e sim de uma opção estética enraizada na estrutura narrativa e na dimensão sensorial que o filme quer construir.
Bibliografia

Baudelaire, C., “Le peintre de la vie moderne”, p. 115. Selected critical studies of Baudelaire. Cambridge, University Press, 1949.

Edgar Allan Poe, "The man of the crowd" in The fall of the house of Usher and other writings. London: Penguin Classics, 2003, pp. 131-140.

Lins, Consuelo, "Cao Guimarães e a suspensão do tempo", in Katia Maciel & Livia Flores. (Org.). Instruções para filmes. 1ed.Rio de Janeiro: +2 Produções, 2013, v. , p. 87-93.

Rancière, J. Aisthesis, Scènes du régime esthétique de l'ar. Paris, Galilé, 2011.