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  Título
O Corpo Hippie em Céu Sobre Água (1978) de José Agrippino de Paula
Autor
Geraldo Blay Roizman
Resumo Expandido
O espaço do corpo em Céu sobre Água aconteceria, então, como um grande espetáculo de serenidade própria da improvisação do Raga indiano de uma geografia a ser explorada pelo olhar, como uma paisagem plurisensorial corpórea e luminoscente que se move sincronizada ao deslizamento dos Shrutis, em que ouvimos o oceano de microtonalidade executado por Ravi Shankar. O corpo de José Agrippino de Paula não se diferencia do de Maria Esther Stockler em Céu sobre Água, pois os dois foram construídos ao longo de todo um processo artístico de Agrippino na literatura, de Maria Esther Stockler na dança como fluxo de energia e do grupo Sonda como um corpo coletivo no teatro e no cinema que realizaram e ainda a experiência na África. Isso significa que, até Arembepe, instituiu-se como um corpo do estar aí no mundo que tem plena consciência do corpo indígena e africano. Um corpo pertercente á sua época contracultural, momento em que assume a própria eroticidade, múltiplo, catalisador de experiências e que deixa de ser instrumento resignado da força de trabalho para se tornar um veículo de liberação, transformado em texto artístico. O tempo pausado da fala de Agrippino nos remete a um homem mergulhado num profundo alheamento autoconsciente através de um universo próprio de percepção sensível sobre as coisas em que a referência sempre é a valorização da experiência do corpo, seu uso, as distâncias percorridas em um projeto de mundo baseado no respeito ao corpo e na hipótese, a partir disso, da transformação radical no modo de vida do ser humano. Consciência de que seu próprio corpo é apenas um instrumento do devir de liberação do individuo, do eu, e que é uma coisa entre coisas, fluxo de energia no interior da natureza, do movimento, do ar, da luz, no translúcido da água, da cor, como dois seres que habitam a água e suas profundezas como as tribos africanas que filmaram habitam a aldeia, tanto no cotidiano como nos rituais extensos á vida. São portanto seres que se tornaram, ao longo do tempo de suas experiências no teatro, no cinema, eminentemente coletivos, essência da palavra hippie, verdadeira afirmação da vida como arte.O chamado SOMA seria o experimentalismo de uma criação coletiva em íntima relação com a corrente contracultural dos anos 60, do corpo redescoberto, ponto de partida para uma sociedade eximida de complexos e repressões em que o texto e a encenação seriam fruto de uma descoberta do grupo em sala de ensaios trazendo as descobertas das vanguardas internacionais, principalmente a mistura de meios a partir da forma radical de trabalhar a partir dos elementos do conjunto como um corpo coletivo. A iniciativa de fazer da vida uma grande festa acontece até incomodar a intolerância do sistema, que os despoja de seu projeto estético libertário que os faz elaborarem a viagem á África, o grande aprendizado ou confirmação dessa dança, principalmente a do Togo, que deve ter encantado o casal e príncipalmente o corpo holístico de Maria Esther, por seu aspecto libertário. Na volta, em Arempepe, a gravidez. E acontece essa dança de véus aquáticos luminescentes. Esse despojamento dos corpos em meio ao diáfano como produtor de imagens que nos contaminam com a sua serenidade. O espírito torna-se criança, desinteressado. Ludus Livre como diria Nietzsche, num momento político repressivo, como diria Gilberto Gil, Aqui, fora de perigo. E nada mais propício do que realizarem um filme despretensioso com uma máquina extensa ao corpo, máquina que opera nas mãos de Agrippino a comunhão de um meio ambiente formado pelo fluxo sensório da câmera-olho junto a paisagem e a água translúcida na luz e no corpo grávido e sensiente em movimento de Maria Esther, este que se capacitou como um fluxo de energia vivo e que, com a vinda de Manhã, atuam com a natureza como um só corpo livre pois coletivo, ou seja, só sendo liberto é que pode, desta forma, ser libertário.
Bibliografia

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