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  Título
O espaço imaterial no cinema de Jia zhangke : uma política do olhar
Autor
Camilo Soares
Resumo Expandido
A presente proposta tem como objetivo analisar a abordagem do espaço no cinema de Jia Zhangke, o cineasta mais destacado, junto a Wang Bing, da geração independente, ou sexta geração, do cinema chinês, como forma de engajamento de consciência política. A estética e a mise-en-scène de Jia fazem do registro cinematográfico a imagem do processo de mudanças da China atual, assim como um espaço construído subjetivamente a partir da memória e da imaginação. Seu cinema faz assim uma crítica sutil, mas contundente, da violenta modernização chinesa, que engendra a destruição de paisagens históricas, a perda de referências culturais e a exasperação social da população à margem desse processo desenvolvimentista.



A partir da imagem, Jia busca primeiramente construir uma leitura histórica e dialética do espaço da China contemporânea. O que está em jogo nessa forma de visão ativa de escritura histórica é, como diz Ricoeur, a própria identidade das coletividades e comunidades, na sua maneira de contar a eles mesmos “suas próprias histórias, contando as histórias dos outros”. Esse gesto se engaja contra o fenômeno do esquecimento, que se revela o desengrenar de um mecanismo de controle social, que impõe uma memória ensinada a uma coletividade, em forma de memória oficial. O cinema de Jia desenvolve, assim, uma forma de perceber e combater a ideologia oficial escondida num espaço a partir da formulação de sua história ; tal ideologia que Hannah Arendt chamava de Modernidade e Benjamim simplesmente de Progresso.



Dessa forma, a câmera de Jia não atua como um mero aparelho de registro do espaço : suas imagens agem sobretudo como mediadores culturais, dando forma, sentido e existência a esse mundo filmado. Entretanto, como Henri Lefebvre, desconfiemos de saltos demasiado rápidos entre teoria e prática, do mental ao social, quando falamos de produção de espaço. Segundo ele, devemos antes de tudo ultrapassar o espaço neutro, o que se opõe tanto à visão kantiana quanto à tradição marxiste-materialista, ambas percebendo o mundo como um objeto sujeito à modernidade e ao progresso material. Os postulados de Lefebvre nos faz pensar a maneira pela qual Jia Zhangke conduz a passagem de um espaço puramente físico e funcional a uma expressão estética capaz de despertar uma experiência social, revelando assim um potencial político.
Bibliografia

G. Didi-Huberman, L’image survivante, Paris, Les Ed. de Minuit, 2002

LEVEBVRE Henri, La production de l’espace, Paris, Éditions Anthropos, 1974,

Arendt Hannah, La crise de la culture, Paris, Gallimard, 1972 (1954)

NISHIDA Kitarô. L’Éveil à soi. CNRS Éditions, Paris 2003

RANCIÈRE Jacques, Le spectateur émancipé, La fabrique ed., Paris, 2008

Ricœur, Ricoeur Paul, “Histoire et mémoire”, in: BAECQUE A. et DELAGE C. (dir.), De l’histoire au cinéma, Paris, IHTP/ CNRS/ Éditions complexe, 1998