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  Título
Entre lá e cá, experiências transatlânticas
Autor
Henri Arraes de Alencar Gervaiseau
Resumo Expandido
Pretendo dar continuidade, nesta comunicação, a reflexão desenvolvida em anos anteriores a partir das minhas investigações acerca do documentário como meio de expressão da experiência do deslocamento. Neste ano, centrarei o meu foco em filmes que tematizam experiências heterogêneas de deslocamento envolvendo o espaço transatlântico. Buscarei discutir, em cada caso, as estratégias de registro escolhidas bem como os modos privilegiados de composição dos materiais na montagem para dar conta das vivências sócio-históricas evocadas.

Para além da diversidade de abordagem dos filmes que todos trabalham de um modo ou de outro, uma questão central: a intrincada e sofrida relação existente entre deslocamento de um território e o sentimento de pertencimento a uma comunidade. Efetivamente a terra de origem, o território que circunscreve a existência de um grupo é um termo de referência central pelo qual se define o pertencimento e a própria existência de qualquer ser humano.

Em Lost, lost, lost (1976, 178mn), Jonas Mekas, a seu singular modo narra a sua dolorida experiência de exílio, mas também de busca do estabelecimento de novos laços de pertencimento no novo território. Ori (1989, 100mn ) de Raquel Gerber mostra a busca da construção de novos espaços simultaneamente concretos e simbólicos de pertencimento por parte de afrodescendentes brasileiros de escravidão transatlântica. A questão do retorno ao território natal ou ao território de origem dos ancestrais, central para o que poderia constituir uma antropologia contemporânea dos deslocamentos transnacionais, encontra-se no centro de dois outros filmes cuja abordagem pretendemos também discutir: O reino do dia (1967, 118 mn) de Pierre Perrault. Em Notícias de casa (1977, 88mn) de Chantal Akerman, ressalta a distância entre o invisível lado de lá, do oceano, de onde vem o verbo, e onde se encontra a casa, e o lado de cá, lentamente observado da cidade grande do novo mundo, onde o sujeito enunciador, em ultima instância, para ver, se cala.

Este é o corpus de filme que pretendo, na minha comunicação, abordar.
Bibliografia

Certeau, Michel: L'actif et le passif des appartennances, Revue Esprit, Juin 1985, p.155-172.

Gervaiseau, Henri Arraes: Traversées du Régne du Jour. In: Araujo, Juliana; Marie, Michel. (Org.). À grande allure. L'oeuvre de Pierre Perrault. 1ed.Paris: Presses de la Sorbonne Nouvelle, 2015, v. 1, p. 123-131.

Leandro, Anita : Cartografias do Êxodo, in : Revista Devires, Vol. 7, N.1. Jan. /Jun 2010. p.94-111

Margulies, Ivone : Nada acontece. O cotidiano hiper-realista de Chantal Akerman. SP : EDUSP, 2016.

Mourão, Patricia (org): Jonas Mekas. SP : Centro Cultural Banco do Brasil. Pro-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária. USP. 2013.

Nacify, Hamid: An accented cinema. Exilic and diasporic filmaking. Princeton: Princeton University Press. 2001.

Sayad, Abdelmalek : O retorno, elemento constitutivo da condição do imigrante, in : Revista Travessia. Publicação do Centro de Estudos Migratórios. Ano XIII. Número especial, janeiro 2000, p.7-32