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  Título
A experiência sonora e o processo criativo no filme Eugênia no Espaço
Autor
Henrique Gomes
Resumo Expandido
A gravação de campo, ou field recording, foi a principal prática utilizada pelo World Soundscape Project (WSP) para se aproximar dos sons da cidade e produzir, entre outros projetos, The Vancouver Soundscape. Tais registros sonoros tornaram-se essenciais para o desenvolvimento do conceito de paisagem sonora, na figura de R. Murray Schaffer. Da mesma forma que esses registros ajudam Schaffer a fundamentar o conceito de paisagem sonora apresentado em sua obra A afinação do mundo, de 1977, o inverso também ocorre: o desenvolvimento de tal conceito influencia diretamente as práticas de pesquisa sonora que nele se pautam.

Em uma pesquisa pautada pelo conceito de paisagem sonora apresentado por Schafer, a gravação de campo (field recording) foi a principal prática utilizada por ele e pelos outros integrantes do WSP para se aproximar da cidade e levantar questões a respeito da poluição sonora. Através dessa metodologia, o WSP desenvolveu diversos projetos de mapeamento sonoro e construiu um acervo de pesquisa importante, movimentando o debate em torno da ecologia acústica. Ao longo dos anos, a prática da gravação de campo se disseminou como a principal forma de aproximação em relação a paisagem ao tratarmos da pesquisa sonora em artes. No entanto, apesar da contribuição dessa prática em áreas diversas de pesquisa e criação em chamar atenção para a experiência do som, o conceito de paisagem sonora, como fundamentado por Schafer em "A Afinação do Mundo", tem sido amplamente revisto por diversos autores, como Tim Ingold, que propõem outra aproximação à percepção sonora. Em seu artigo "Against Soundscape", Ingold problematiza a visão otocêntrica que prevalece nos estudos da escuta. Segundo ele, a experiência perceptiva sonora cotidiana é de caráter multissensorial, ou seja, é uma prática de cooperação dos sentidos, que é diretamente afetada pelos múltiplos aspectos sensoriais da experiência. Ingold ressalta que “o poder do conceito prototípico de paisagem repousa precisamente no fato de não estar vinculado a qualquer registro sensorial específico – seja de visão, audição, tato, paladar ou olfato”. Para ele, “na prática perceptual ordinária estes registro cooperam tão proximamente, e com tal sobreposição de função, que suas respectivas contribuições são impossíveis de serem separadas” (INGOLD, 2015).

Para Ingold, não há uma relação entre observador passivo que percebe a realidade concreta e pondera sobre os aspectos de determinado conjunto de sons, como o conceito de paisagem sonora introduzido por Schafer sugere. Há um processo dinâmico e recíproco entre o ambiente e um observador que é, necessariamente, participativo. Dessa forma, a pesquisa do som de um lugar é indissociável de aspectos visuais, táteis, ambientais e sociológicos da paisagem e da presença desse corpo participante. Sendo assim, a prática de gravação de campo como pesquisa sonora, ao pensarmos a abordagem de Tim Ingold à paisagem, limita-se ao registro sensorial auditivo, deixando de lado outros aspectos fundamentais da experiência perceptiva sonora. Se a gravação de campo e a captação de som direto já não dão conta do som na paisagem, segundo a problematização de Ingold, que outras práticas são possíveis para a pesquisa sonora nas artes e, mais especificamente, no audiovisual? Busco nesse texto tensionar a abordagem otocêntrica recorrente nessa área de pesquisa para refletir sobre outras formas de se aproximar do som na paisagem, levando em consideração a cooperação dos sentidos na experiência perceptiva cotidiana. Para isso, recorro a análise do processo de realização do curta-metragem “Eugênia no Espaço”, realizado por mim e por Juliana Siebra em 2013, e do desenvolvimento de uma proposta de desenho sonoro que recorre a visitas ao espaço e a procedimentos da performance como alternativa à captação de som direto.
Bibliografia

GALLAGHER, Michael. Field recording and the sounding of spaces. In: Environment and Planning D: Society and Space 2015, volume 33. SAG Publications. 2014.



INGOLD, Tim. Against soundscape. In: CARLYLE, A. Autumn Leaves: Sound and the

Environment in Artistic Practice. Paris, Double-Entendre, 2007.



INGOLD, Tim. Materials against materiality. In: Being alive: essays on movement,

knowledge and description. Oxfordshire. Routledge, 2011.



INGOLD, Tim. Landscape or weather-world. In: Being alive: essays on movement,

knowledge and description. Oxfordshire. Routledge, 2011



KANNGIESER, Anja. Listening to the Anthropocene. Fala em 14 de dezembro de 2015 na Gertrude Contemporary Art Gallery. Melbourne.



SCHAFER, R. Murray. (1977). A afinação do mundo. São Paulo, Editora da UNESP, 1997.



SCHAEFFER, Pierre. (1966). Tratado dos objetos musicais. Brasília, EdUnB, 1993.



THOMPSON, Emily. The soundscape of modernity. Cambridge. MIT Press, 2002.



TRUAX, Barry. Handbook for acoustic ecology. 1978.