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  Título
Persistências da autoria nos estudos de cinema.
Autor
Gustavo Henrique Ferreira Bittencourt
Resumo Expandido
O autor já foi declarado morto, questionado sobre sua necessidade para efeitos de produção e recepção relacionados à obra. Destacado na compreensão da produção de sentidos vistos nessa distinção. Essa noção de autoria, então comum na literatura e artes plásticas, seguida pela ideia de mise-en-scène como repertório conceitual, serve para examinar filmes na perspectiva do diretor como artífice maior. Essa é a grande contribuição da crítica para os estudos de cinema, fundamentada no século passado pela Cahiers du Cinéma com a discutida Política dos Autores, ao destacar a genialidade artística no interior de uma produção industrializada. Tal premissa gera controvérsias até hoje.

O aspecto fundamental dessa discussão reside na entronização da figura do autor no cinema, tendo em vista sua problematização. Pois os filmes são produtos de caráter coletivo. Como formulação teórica suas premissas são consideradas frágeis, demasiado subjetivas. Desde que se emprega essa ideia: o autor precede a obra, esta abordagem revive para além de uma circunstância que serve para entronizar o diretor, pois esta expressão se torna característica primeira, na teoria do cinema, do movimento chamado Autorismo (STAM, 2003), tomando o cineasta como autoconsciente diante da percepção do público e crítica.

Ideias de autoria reverberam como métodos de análise e formulações como Teoria do autor, Estruturalismo autoral (CAUGHIE, 2005), Autor global (JEONG; SZANIAWSKI, 2016), Autoria como performance (SAYAD, 2013) dentre outras denominações que perpassam o tema (WEXMAN, 2003). Desdobram-se noções de autoria como requisitos teóricos para discussão sobre autenticidade, agenciamento e identidade. O autor aparece como instância performática nos próprios filmes, com efeitos de enunciação e interpretação sobre seu desempenho visto nas mídias. O enfoque das condições de produção associado às estratégias mercadológicas que nomeiam o autor torna-se um negócio.

Essa ideia é revisitada por causa da interação facilitada pela cultura digital quando despontam autonomia e independência criativa por parte de não profissionais, além do surgimento de obras com caráter coletivo, que põem em xeque antigas noções sobre autoria. Independência na forma de consumo e produção entra em choque na cultura tensionada entre profissionais e amadores, formatada pelas leis de mercado, nas relações de propriedade intelectual e direitos autorais.

A influência da autoria nos estudos sobre o tema dirige nosso olhar para observar profundas repercussões mercadológicas e culturais na atualidade. Afinal, esta foi uma construção da crítica estabelecida no século passado que repercute atualmente. Reconfigurando o meio cinematográfico nas estratégias de nichos mercadológicos, vistas, por exemplo, em festivais de cinema espalhados pelo mundo. Ressalta-se a consagração do autor global como produto de exportação para o mercado internacional (JEONG; SZANIAWSKI, 2016). Filmes são analisados sob o signo autoral em variadas circunstâncias, distinguindo marca/assinatura com propósitos diversos. Especialmente, como porta de entrada para estudos dos aspectos relacionais entre obra e público, com características de recepção cinematográfica (BAMBA, 2009).

Nesta breve apresentação, destacam-se propostas teórico-metodológicas organizadas pela noção de autoria na história das teorias de cinema, observando nesta abordagem o culto aos diretores e marcas consagradas na distinção de valores como extensão propositiva no mercado de festivais. Essa classificação simbólica institucional, fundamentada por meio de traços discursivos, é amparada pela crítica e cinefilia que estabelece rituais na consagração do autor, constituindo fortes premissas para investigar a cultura cinematográfica. Sobretudo, a questão da autoria serve como peça-chave para discutir conceitos relacionados à criatividade, performance, legitimação, status e valor cultural, convenções de gênero e culto à celebridade.
Bibliografia

BAMBA, Mahomed (Org). A recepção cinematográfica teoria e estudos de caso. Salvador: EDUFBA, 2013.

CAUGHIE, John (Ed.). Theories of autorship. BFI Readers in Film Studies-reprinted-US, NY: Routledge, 2005.

FREY, Mattias; SAYAD, Cecilia. Film criticism in the digital age. UK, London: Rutgers University Press, 2015.

JEONG, Seung-hoon; SZANIAWSKI, Jeremy (Ed.). The global auteur: the politics of authorship in 21st century cinema. UK, London: 2016.

RAMOS, Fernão Pessoa (Org.). Teoria contemporânea do cinema: pós-estruturalismo e filosofia analítica. Vol. 1. São Paulo: Editora Senac São Paulo, 2005.

SAYAD, Cecilia. Performing authorship: self-inscription and corporeality in the cinema. UK, London: IB Taurus, 2013.

SERAFIM, José Francisco (Org.). Autor e autoria no cinema e televisão. Salvador: EDUFBA, 2009.

STAM, Robert. Introdução à teoria do cinema. Tradução: Fernando Mascarello. Campinas, SP: Papirus, 2003.

WEXMAN, Virginia Wright. Film and autorship. UK, London: Rutgers University Pres