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  Título
Encantamento e desencantamento do mundo na trilogia Coração de Ouro
Autor
Larissa Malfatti Vieira
Resumo Expandido
A proposta desse trabalho é uma aproximação entre a linguagem cinematográfica e a sociológica a partir dos filmes Ondas do destino (1996), Os idiotas (1998) e Dançando no escuro (2000). A trilogia Coração de ouro do cineasta escandinavo Lars von Trier foi compreendida como obra cujo conteúdo estético extrapola a dimensão do artístico e se configura como locus privilegiado de uma reflexão contemporânea sobre questões que, na Sociologia Clássica, receberam muitas formulações importantes, entre as quais as teorizações de Max Weber sobre os conceitos de secularização, desencantamento do mundo e moral cotidiana.

A partir de elementos internos à trilogia, explora-se uma aproximação entre o conjunto analítico de Weber e os filmes de Trier potencialmente frutífera para a apreciação do significado dessa reflexão fílmica para a contemporaneidade.

Tomando como inspiração a metodologia de Auerbach ao aproximar a filosofia de Voltaire da obra literária de Stendhal, assumiu-se que os filmes, assim como as obras estudadas por Auerbach, podem ser interpretados numa perspectiva diferente das intenções de seu autor, desde que se considerem os rastros deixados mais ou menos involuntariamente no interior dos filmes. (Ginzburg, 2007:11)

Analisando-se as imagens, os enquadramentos e também dos diálogos de Ondas do destino (1996) percebeu-se a presença densa de elementos que guardam bastante afinidade com o racionalismo ascético protestante, representativo do contexto no qual a protagonista Bess se desenvolve ambiguamente, aglutinando uma expressão de fé sem intermediários – característica que divide catolicismo e protestantismo durante a Reforma – com a crença em milagres. Ou seja, as pessoas da comunidade religiosa de Bess apresentam uma fé austera e condenatória, desencantada, despojada de seus elementos carismáticos, cujas técnicas de salvação estão radicadas no mundo do trabalho. Bess, contudo se opõe a todos ao demonstrar em si mesma a preservação de uma fé de caráter místico, pautada no amor ao próximo, na salvação pela graça.

Essa expressão de fé observada inicialmente em Bess foi compreendida como uma forma de “encantamento” do mundo que persistiria nas trilogias posteriores através das atitudes sacrificiais, da docilidade e fragilidade também de Karen e Selma, protagonistas igualmente colocadas em contraposição a culturas racionalistas, ainda que nos outros dois filmes esteja ausente a representação de uma igreja autoritária como no primeiro. Esse tipo de dominação pôde ser tematizado a partir da estrutura capitalista, representada em Dançando no escuro através da fragilidade de Selma no mercado de trabalho e da violência eloquente do judiciário que a condena à morte; em Os idiotas ela foi tematizada através do conjunto de regras de convívio do grupo que supostamente estaria se revoltando contra as relações sociais capitalistas.

Embora haja nuances na construção das protagonistas de Coração de ouro, elas poderiam em boa medida ser aproximadas da ética religiosa do amor místico, que representaria, o caminho tomado pelo misticismo em razão do fracasso da fraternidade na realidade desumana do mundo econômico, tal reação elevaria a exigência do amor ao próximo a uma bondade indiscriminada. (Weber, 2014:392). Ética também presente na experiencia religiosa da igreja primitiva (Waizbort, 2000: 289), revelaria um habitus psicofísico, uma constituição anímica e nervosa distinta da do ascetismo que marcaria a ascensão do capitalismo no Ocidente. Podendo, talvez, ser aproximada dos paradigmas de bondade da literatura russa de Dostoiévski, tal ethos ensejaria a figuração de uma sociedade regida por outros valores e uma economia pulsional distinta da capitalista.

O desenvolvimento da pesquisa também busca compreender o projeto artístico de Trier – delineado em seus manifestos – na relação com a influência de Dreyer, Bergman e Tarkovsky, reivindicadas por ele.
Bibliografia

FRANCASTELL, Pierre, BARROS, Mary Amazonas Leite de (trad). A realidade figurativa. São Paulo: Editora Perspectiva, 1982.

GINZBURG, Carlo. Introdução. In: O fio e os rastros. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.



PIERUCCI, Antônio Flávio. O desencantamento do mundo: todos os passos do conceito em Max Weber. São Paulo: Editora 34, 2013.



SORLIN, Pierre. Sociología del cine. La apertura para la historia de mañana. Paris: Aubier Montaigne, 1977.



WAIZBORT, Leopoldo. Max Weber e Dostoiévski literatura russa e sociologia das religiões. In: SOUZA, Jessé de (org.). A atualidade do pensamento de Max Weber. Brasilia: UNB, 2013. p.283-303.



WEBER, Max, 1904. A ética protestante e o ‘espírito’ do capitalismo. São Paulo: Companhia das letras, 2004.

__________. 1972. Economia e Sociedade.Vol.1. Brasília: Editora UNB, 2014.

__________. 1963. A psicologia social das religiões mundiais. In: Hans Gerth e Charles Wright Mills (orgs.), Ensaios de Sociologia, Rio de Janeiro: LTC, 2013.