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  Título
Godard: cinema mundo e adeus à linguagem
Autor
Junia Barreto
Resumo Expandido
A aproximação entre literatura e cinema em Adieu au Langage, de Jean-Luc Godard, não se encerra no diálogo das narrativas tecidas em seus objetos, confrontando os textos literário e fílmico. Godard toma o cinema como um continente, como um mapa mundo, como espaço infindável da experiência e da viagem, no qual se desloca por entre as imagens de seus grandes mestres, lendo e interpretando a história do mundo através das imagens do cinema e transmitindo-a da mesma forma. Sua investigação dessa história é também literária, ali dividida em capítulos e pincelada por intertítulos poéticos. Imagens que remetem a mitos literários, evocação [por vezes de forma minimalista] de ensaístas e autores, citações inteiras que eclodem da boca dos personagens ou mesmo um genérico que credita sua biblioteca pessoal ao final da película - Blanchot, Hugo, Cocteau, Proust, mas também Sartre, Benjamin e Derrida, entre outras referências. Literatura, cinema, pintura, fotografia, música, técnicas em 3D, imagens de smartphones e de câmeras Go-Pro, pequenos arranjos cênicos, traços de discurso na tela escura escrevendo as inquietações do mundo ou simples resgate de imagens de filmes antigos ou extratos de arquivos históricos. Tudo na tela como em cut up. Godard efetua ali uma verdadeira operação de cirurgia ótica, espécie de pintura moderna, ‘simples valsa’ de despedida testamental, executada pelas diferentes mídias e artes. Réquiem autoral de adeus de si mesmo ou de um tempo de escritura fílmica que findou – incerto; mas a certeza de assistir a um sublime exercício de montagem-colagem-mixagem, expressão singular de articulação de imagens e palavras, imagens e som, a partir do que pretendemos trilhar nossa reflexão. Adeus a uma linguagem que finda, mas também signalética de um devir.
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