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  Título
Há sempre uma imagem que falta
Autor
Roberta Veiga
Resumo Expandido
Assistir A imagem que falta (2013), do cineasta cambojano Rithy Panh, é de fato sentir que a imagem falta. Falta a imagem que nos documentários do cineasta nos dava a ver ex-soldados do partido comunista, torturadores de inocentes, reencenando seus atos, como em S-21 a máquina de morte do Khmer Vermelho (2003). Falta a imagem de Duch, o mandante do regime totalitário do KV, a se esquivar das provas contra ele. Mas, por acaso, faltariam as imagens-pensamento, que ao colocarem vitima e algozes frente a frente, nos interpela sobre como pode o ser humano produzir sofrimento, espalhar dor, e se vincular, assim, a morte? Se em S-21 e Duch, o mestre das forjas do inferno (2011) vemos imagens indiretas do genocídio, ocorrido entre 1975-1979 no Camboja, aquelas possíveis de serem geradas no presente junto aos participantes do acontecimento, e outras que de lá vieram na forma de arquivos, e ainda assim algo do passado sempre falta, em A imagem que falta, a imagem do presente que inscreve o filme num aqui-e-agora se ausenta, parece não mais haver o que filmar.

Em entrevista a Jean-Luc Godard, Chantal Akerman disse: a escrita começa da página em branco já o cinema, quando se liga a câmera, algo está lá. Para onde apontar a lente quando o que se quer filmar é uma ausência ou uma página em branco na memória? É preciso inventar com o aparato para que a memória encontre formas de se manifestar– pois é que a memória cria imagens uma vez que esquece. Depois de fracassar em sua perseguição por uma imagem concreta de crianças trabalhando em condições precárias nos campos cambojanos, Panh precisa lidar com a falta que se duplica. Não aparece o arquivo e também sua memória não mais se liga a aldeia a qual deixou nos anos 70. Se a falta é dupla – da imagem física e da imagem mental - a invenção também o é. Não há como encenar o que ocorreu na aldeia onde os cambojanos, despidos de suas identidades, eram forçados ao trabalho - quando de seu retorno, ela só é ausência - seria preciso criar o cenário de sua infância, onde os pais foram mortos. Fantasmas e lembranças, do massacre da ditadura comunista, poderiam enfim reaparecer para povoar a maquete, aldeia imaginária, que Panh constrói, e os bonequinhos de argila o fazem. A imagem sempre faltará, aquela que é a origem de tudo, mas outras vêm atender ao chamado político de Panh de reencontrar os seus, salvá-los do apagamento completo. Esse dispositivo mnemônico parece fazer a infância retornar apenas como resistência enquanto encena seu apagamento.

A ideia é escavar os extratos históricos, semióticos, políticos, e subjetivos que compõe essa imagem que falta. Interessa-nos traçar com maior precisão as conexões entre a imagem material (o arquivo ausente) e a imagem-memória (a lembrança ausente) com apoio da reflexão de Didi-Hubberman que nos lembra, junto com Benjamin, que a lógica da história é mnemônica: lacunar, esgarçada. Queremos percorrer o fio que vai do pessoal ao político através desse tecer da memória pela invenção de um dispositivo fílmico, um processo criativo no presente, que permite a Panh se colocar em obra e criar um meio de restituir algo do comum que a promessa ideológica do KV transformou em miséria moral e física.

Não há passado ao qual se instalar é no presente que o sujeito tece a memoria, diria Benjamin lembrando Proust. Poderíamos falar que no processo de criar e por em cena os bonequinhos de argila, A imagem que falta, não é apenas a elaboração do trauma de Panh, mas a perlaboração do luto histórico, como diria Maria Rita Kehl? Ao animar o passado com pueris miniaturas, gesto ficcional confesso, e confronta-lo às imagens oficias, aquelas feitas a mando o regime ditatorial de Pol Pot, o cineasta monta um dispositivo lúdico-narrativo-político. Se tal dispositivo credita à montagem a criação de um espaço conflituoso de memória que, ao unir presente e passado, escancara o dano coletivo e se oferece como contra-história, porque há sempre uma imagem que falta?
Bibliografia

BENJAMIN, Walter. Obras Escolhidas Vol.I: São Paulo: Brasiliense, 1987.

DIDI-HUBERMAN, Georges. Diante do Tempo: história da arte e anacronismo das imagens. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2015.

GAGNEBIN, Jeanne-Marie. O que significa elaborar o passado?Lembrar, escrever, esquecer. São Paulo, 34, 2006.

Kehl, Maria Rita. Tortura e Sintoma Social. O que resta da ditadura : a exceção brasileira. E. Teles e V. Safatle (Org.) São Paulo: Boitempo, 2010.

LEANDRO, Anita. A história na primeira pessoa: em torno do método de Rithy Panh. Anais da Compós – 23◦ Encontro da Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação, UFPA, 2014.

PANH, Rithy. Sou um agrimensor de memórias. In: Catálogo da mostra O cinema de Rithy Panh. CCBB, 2013.

ROLLET, Sylvie. Devolver o olhar. In: Catálogo da mostra O cinema de Rithy Panh. CCBB, 2013.

SELIGMANN-SILVA, Márcio. Narrar o trauma: a questão dos testemunhos de catástrofes históricas. Psicol. clin.2008, vol.20, n.1.