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  Título
Memória e Esquecimento: o filme como dispositivo de memória coletiva
Autor
Lara Santos de Amorim
Resumo Expandido
De acordo com a antropóloga Mariza Veloso “tanto o patrimônio cultural, quanto a memória coletiva e seus suportes materiais – bibliotecas, museus, arquivos – devem estar enraizados em práticas culturais concretas, e é essa imersão no cotidiano que imprime aura e significação social e política a ambos, e que também os conecta com a cidadania – enquanto prática e exercício do direito de acesso aos bens patrimoniais e aos dispositivos da memória coletiva (2008, p. 137).

Sabemos que o que sobrevive enquanto memória coletiva não é o conjunto de monumentos ou documentos que existiram, mas o efeito de uma escolha realizada pelos historiadores e pelas forças políticas e sociais que atuaram em cada época histórica (LE GOFF, 1995). Halbwachs entende que a memória individual está sempre relacionada à memória do grupo. No entanto, a afirmação da coercitividade da memória coletiva nem sempre é aceita por outros teóricos. Pollack, por sua vez, compreende a memória como um campo de forças sociais e políticas e sua história diversa e conflituosa. Enquanto um se refere à negociação entre memória coletiva e individual, o outro identifica o caráter destruidor, uniformizador e opressor da memória coletiva e nacional (MENEZES, 2005). Estamos nos referindo, portanto, a uma memória subterrânea, uma memória marginalizada que pode finalmente vencer a resistência da dominação da história oficial e revelar uma memória e uma identidade social que foi invisibilizada, silenciada ou mesmo excluída em meio a um processo seletivo de construção de uma “comunidade imaginada”, de uma Nação, ou de uma cultura nacional.

A partir de tal perspectiva podemos nos perguntar, em diálogo com autores como Halbwachs, Pierre Nora e Paul Ricoeur, como a memória pode se tornar, ao operar a partir de um processo seletivo, uma arma política para as vítimas de guerra e genocídios, em que o esquecimento estabeleceu sua hegemonia? (SANTOS, 2013). E ainda, como o cinema, neste caso, mais especificamente dois filmes documentários dirigidos por Emília Silveira, Setenta (2014) e Galeria F (2016) acessam este imaginário coletivo reprimido sobre um momento político que versões oficiais da história optaram deliberadamente por esquecer. É possível argumentar então que, ao utilizar como matéria-prima arquivos, acervos e histórias de vida, os artefatos culturais produzidos pelo cinema (filmes) têm o poder de acessar esta memória subterrânea coletiva. E tornam-se prova de um passado que, embora esquecido por fontes oficiais, está disponível para aqueles que não se contentam com o esquecimento como a única narrativa possível de um passado político coletivo traumático.

De acordo com o filósofo da fotografia Vilém Flusser, as imagens são mediações entre o homem e o mundo e têm o propósito de representar o mundo. O propósito da imagem seria ser o “mapa do mundo, mas passam a ser biombos”. As imagens devem servir de instrumentos para orientar o homem no mundo. Edgar Morin (1958) no livro O cinema e o homem imaginário, afirma que o cinema se apresentaria como um universo imaginário que concentra manifestação de desejos, sonhos e mitos do homem (XAVIER, 2014, p. 23). Já Bill Nichols (2016) refere-se ao documentário como um “tratamento criativo da realidade” e lembra que a intenção do diretor é de tratar de um tema que lhe seja caro. Assim, ao escolher levantar a memória de presos políticos que sofreram com a ditadura no Brasil em sua narrativa fílmica, a diretora acaba por acionar a qualidade atemporal da imagem de ultrapassar o tempo histórico, e para além da lembrança e do esquecimento, ligar passado, presente e futuro, deixando como legado um documento, um depoimento que pertence a uma memória coletiva, cujo imaginário poderá ser compartilhado entre aqueles que se sentirem parte de uma experiência social e política. Com essa reflexão pretende-se pensar também sobre o fato de que, no Brasil, parece haver uma resistência em se cultivar uma memória coletiva autocrítica sobre o que de fato ocorreu.
Bibliografia

AMORIM, L. S. de. “Cinema e as condições de produção da imagem em Super-8 na Paraíba: aproximações possíveis entre acervo imagético e memória”. Em Cinema e Memória- O Super 8 na Paraíba nos anos 1970 e 1980 (Org.) (2013). João Pessoa: Editora da UFPB, 2013.

FLUSSER, Vilém. A Fotografia como Objeto Pós-Industrial (1985). Publicado na ZUM, Revista de Fotografia. ZUM # 7, OUT. 2014. Instituto Moreira Salles, São Paulo.

FREIRE, M., LOURDOU. (org.) Descrever o Visível. Cinema Documentário e Antropologia Fílmica. São Paulo: Ed. Estação Liberdade, 2010.

SANTOS, Myriam S. dos. ”História, memória e esquecimento”. Em Memória Coletiva e Identidade Nacional. São Paulo. Annablume, 2013.

VELOSO, Mariza. “Patrimônio Cultural e Espaço Público – Notas reunidas”. Programa de Especialização em Patrimônio. Cadernos de estudos do PEP. 8ª Oficina PEP/IPHAN, Petrópolis, 2008 (publicação interna).

XAVIER, Ismail (org). O discurso cinematográfico: a opacidade e a transparência. São Paulo: Paz e Terra, 2014.