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  Título
Olhar, sentir, curar: o cinema de garagem e a crítica contemporânea
Autor
Diego Morais Vieira Franco
Resumo Expandido
Qual é o lugar da crítica frente a uma produção mais independente e de baixo orçamento? Provocados por esta problemática, esta pesquisa propõe uma abordagem analítica a partir da Mostra Cinema de Garagem, entrelaçando certos acontecimentos que motivaram o seu desenvolvimento a uma pesquisa bibliográfica e fílmica que ajude a iluminar, de certo modo, o lugar e importância da crítica de cinema quando esta se coaduna a processos curatoriais, em estratégias de promoção de novas estéticas e preservação do audiovisual. Um lugar é criado nas mostras e festivais de cinema onde a significação é construída, mantida e, ocasionalmente, desconstruída. Parte espetáculo, parte evento sócio-histórico, parte serviço de estruturação, elas estabelecem e administram os significados culturais da arte. Apesar da perversidade do mercado cinematográfico, elas resistem e se multiplicam país afora, se configurando como uma janela alternativa de exibição. Nesse contexto, surge a figura do curador-criador, crítico que se coloca em meio a efervescente produção favorecida pelas tecnologias digitais. Com a possibilidade para novos formatos de compartilhamento, exibição e difusão dos filmes, o digital transformou o circuito fechado dos festivais, os quais até o início do século recebiam apenas trabalhos em 35mm.

Pairando entre os festivais, mostras e o cinema das salas comerciais, a crítica funciona como um lugar de rastreamento de trabalhos, de intenções e desejos (IKEDA, 2011). Como realizador, curador e crítico de cinema, Marcelo Ikeda pôde desenvolver um olhar aguçado para a produção contemporânea, a partir de um complexo devir entre seus ofícios, o que possibilitou entender certas pulsações, inclinações do cinema nacional. Junto com o realizador e curador Dellani Lima, apresentou esses lampejos acerca da cena contemporânea sobre o termo Cinema de Garagem. Mais do que definir algo, a expressão se coloca como ponto de partida para refletir sobre o estado das coisas no cinema brasileiro contemporâneo.

É sabido que uma política de orientação do olhar é desenvolvida pelos meios de comunicação e a indústria cinematográfica, o que estabelece normas para a manipulação da imagem que, de tão corriqueiras, tornam-se inconscientes. São modelos e fórmulas de entretenimento, filmes com estética televisiva, efeitos espetaculares, roteiros lineares de plena identificação do espectador. Apesar disso, são produzidos no Brasil trabalhos relevantes que, ao invés de fornecer um repouso ao olhar, geram dúvidas, incomodam, inquietam, retiram o observador da sua zona de conforto e os lança em um campo verdejante de indeterminação.

Não há outro paraíso que não seja os paraísos perdidos e, acreditando nisso, o crítico torna-se eterno andarilho a procura do objeto de desejo inatingível. Talvez a busca seja ela mesma o paraíso criptografado, esse ímpeto que esquenta e move os corpos. Movimento interminável que reflete a descrença na resposta única, arbitrária, no fim dos caminhos: prevalece um labirinto audiovisual sem fim, onde deixar-se perder é buscar no enigma a solução para as contradições que envolvem a vida e o cinema, e que se insinuam como real e única saída a todos. Resistir a certas armadilhas é urgente, acreditando, por exemplo, que seja possível sim existir além dos sistemas que controlam a distribuição do dinheiro estatal ou as salas comerciais de cinema. Que um celular na mão e uma ideia na cabeça pode atravessar barreiras, encontrar subjetividades indescritíveis e despertar um outro modo de olhar. Mas para levantar esse voo é necessário uma crítica capaz de expandir as veias de sensibilidade do espectador-leitor, que muitas vezes é também o realizador. Uma crítica como um exercício que não deve ser arbitrário, limitado a um contato imediatista e superficial com os filmes, mas que precisa ambicionar algo, uma visão de cinema, uma reflexão que se traduza concretamente para o cinema e para o mundo.
Bibliografia

BAECQUE, A. Cinefilia - invenção de um olhar, história de uma cultura. : Cosac&Naify. São Paulo, 2010.

IKEDA, Marcelo (org.). Filme livre! curando, pensando e mostrando filmes livres. Editora Vozes. Rio de Janeiro, 2011.

IKEDA, Marcelo. LIMA, Dellani. Cinema de garagem: Um inventário afetivo sobre o jovem cinema brasileiro do século XXI. Disponível em: .http://www.cinemadegaragem.com/2012/download/catalogo-cinemadegaragem.pdf

RANCIÈRE, Jacques. A partilha do sensível – Estética e Política. Editora 34. Rio de Janeiro, 2009.

MIGLIORIN, Cezar. Por um cinema pós-industrial: notas para um debate. Disponível em: http://www.revistacinetica.com.br/cinemaposindustrial.htm