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  Título
Miragens dos afetos: a textura enquanto elemento expressivo em Wong Ka
Autor
Elizabeth Motta Jacob
Resumo Expandido
Os procedimentos empreendidos pela Direção de Arte nos filmes de Wong Kar-Wai atuam no sentido de amplificar a percepção táctil das imagens através do uso de texturas enquanto elemento expressivo. Tal procedimento visa aprofundar as relações de contato e intensificar o potencial de afetação das imagens sobre os espectadores.

Wong Kar-Wai explora a temática das dores emocionais, desencontros, solidão. Os filmes se desenrolam lentamente apresentando descontinuidades discursivas dando lugar a percepções que se constroem por indícios.

Na maior parte desta filmografia a Direção de Arte fica ao encargo de William Chang. Estas escolhas estéticas intensificam a decupagem e os efeitos produzidos pela fotografia e se consolidam no uso da cor, nas volumetrias, nas texturas empregadas. Deste modo, no sentido conduzem o olhar para uma dimensão táctil.

(...) no cinema, tal como o diagnosticou Walter Benjamin, a câmara do cinematógrafo, a montagem e certos procedimentos e dispositivos especificamente cinematográficos, como o grande-plano e o zoom, conduzem o olhar do óptico ao háptico e apontam para um funcionamento das imagens enquanto estímulos que se estendem a todo o corpo, dando origem a uma percepção onde a dimensão óptica se vê dobrada de uma dimensão táctil, obrigando a uma reorganização do pensamento estético e das relações tradicionais entre o observador e a recepção das imagens. (DUARTE, SD, p.1)



Nestes filmes tal tendência é especialmente explorada através dos elementos plásticos. A ambientação é densa e delicada, nos fazendo emergir num mundo de experiências sensoriais que expandem os sentidos, e oferecem vivencias sinestésicas. Os espaços, os objetos de cena e os figurinos são impregnados de vivências. As paredes patinadas oelo tempo assim como os móveis desgastados tecem uma materialidade sensível e contrastam com o brilho dos vidros e metais que tem suas texturas e capacidade reflexiva exploradas. Os objetos falam de pertencimento sócio-cultural e dos valores da sociedade retratada. O uso dos planos fechados, da fragmentação da imagem, e a exploração de suas texturas resignificam o espaço, objetos e figurinos chamando atenção para a sua tactilidade, instaurando assim um novo paradigma de visualidade.

Diante dessas obras, o olhar vê obrigado a abandonar a clareza e a distância típicas da produção visual corrente, a ceder certo grau de domínio ou de controle sob o que está vendo e colocar em movimento um outro modo de ver – uma outra economia do olhar. Trata-se de um olhar mais íntimo e cuidadoso, um olhar próximo, atento aos pequenos detalhes, aos pequenos eventos que emergem na superfície da imagem. (GONÇALVES, 2012, p.77)



Ao considerar a obra de Wong Kar-Wai veremos que há algo obscuro em suas imagens, elas não se oferecerem por inteiro, e, a câmera, por sua vez, muitas vezes se aproxima tanto da matéria filmada que nos impossibilita de reconhece-la. Esta proximidade do olhar favorece, potencializa e faz aflorar novas sensibilidades tácteis. Estas se constroem nesta constante superposição de estímulos visuais e hapticos, permitindo um contato íntimo entre a imagem e o espectador posto que o envolve sinestesicamente.

(...)toda sensação táctil tem uma dupla função: percepção de um corpo externo e sensação local do próprio corpo, porém o olho não aparece para si mesmo como visão, se existe com certeza uma experiência de duplo contato, um tocar e um ser tocado, o que porém não há é uma “reflexividade” parecida, nem um “ver-visto”. (LANZA, 19995, p.125)

No entanto, continua o autor, quando o olhar se transforma em contato

e não no exercício da visão, se produz nela algo que é privativo do tato: o objeto percebido entra em relação imediata como corpo que o percebeu”. (LANZA, 19995, p.125)



Este contato íntimo onde a visão e o tato se confundem afetam profunda e sensivelmente o espectador gerando experiências sinestésicas profundas.
Bibliografia

DUARTE, Suzana nascimento http://www.arte-coa.pt/index.php

GONÇALVES, Osmar. Reconfigurações do olhar: o háptico na cultura visual contemporânea, https://www.revistas.ufg.br/VISUAL/article/viewFile/26551/15145

JACOB, Elizabeth Motta. Um lugar para ser visto: a direção de arte e a construção da paisagem no cinema. 170 f. Dissertação - Instituto de Artes e Comunicação, Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2006. www.bdtd.ndc.uff.br/tde_arquivos/28/TDE.../UFF-Com-Dissert-Elizabeth Jacob.pdf

MICHELAN, Fábio. http://diretoresdearte.com.br/2013/09/26/wong-kar-wai-a-direcao-de-arte-como-mergulho-na-sentimentalidade-dos-personagens/

VIEIRA Jr, Erly . Por uma exploração sensorial e afetiva do real: esboços sobre a dimensão háptica do cinema contemporâneo, http://revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php/revistafamecos/article/view/15919

LANZA, Amélia Gonçalves. La textura del deseo https:// books. google. com. br/books?