Voltar para a lista
 
  Título
O Povo vs O.J. Simpson: Continuidade Intensificada nas Séries de TV
Autor
Marcel Vieira Barreto Silva
Resumo Expandido
No cenário contemporâneo de produção seriada para a televisão, sobretudo a de matriz estadunidense, um formato outrora clássico encontrou um horizonte novo para exploração: a Antologia (Machado, 2000), formato que apresentava múltiplas histórias através não da conexão narrativa causal (personagens, tramas, ambientes, etc.), mas de uma unidade temática transversal, ligada a expectativas de gênero e tom. Um exemplo célebre, sempre citado, é o de Além da Imaginação (The Twilight Zone, 1959-1964), série desenvolvida pelo roteirista Rod Serling, já uma figura cultuada na televisão americana durante os anos cinquenta pela escrita de teleteatros de sucesso, como Patterns (1955) e Requiem for a Heavyweight (1956), ambos exibidos ao vivo no Playhouse 90, da emissora CBS.

Tendo sido dominante na televisão durante os anos 1950 e 60, sobretudo devido a facilidades de produção e distribuição da TV ao vivo, as antologias sucumbiram ao sucesso técnico e comercial dos programas gravados (não mais em película, uma tecnologia cara, mas agora em videotape), bem como à necessidade da audiência de um envolvimento afetivo mais a longo prazo, capaz de garantir a fidelização narrativa. Com isso, as antologias se tornaram, a partir dos anos 1970, num formato mais ocasional, em programas voltados sobretudo para a adaptação literária, como Masterpiece, da emissora pública PBS, exibido de 1971 a 2014.

A partir dos anos 2010, no entanto, houve um substancial incremento na produção desse tipo de formato. Para lidar com o fim de dramas contemporâneos (SILVA, 2015) e complexos (MITTELL, 2015), que marcaram o status crítico da TV no início do século XXI (como The Sopranos, The Wire, Mad Men e Breaking Bad), alguns canais investiram em uma reformulação do formato antológico. American Horror Story (FX, 2011), Black Mirror (Channel 4/Netflix, 2011), True Detective (HBO, 2014), Fargo (FX, 2014), American Crime Story (FX, 2016), e o recente Feud (FX, 2017), são exemplos desse momento singular de reconstrução do formato antológico sob a égide da unidade da temporada na constituição da narrativa.

Nesta apresentação, vamos analisar o clímax dramático de O Povo vs O.J. Simpson, primeira temporada da antologia American Crime Story, desenvolvida por Scott Alexander e Larry Karaszewski para o canal FX, sob supervisão de Ryan Murphy, o criador do formato. Ao recontar a história do julgamento de O.J. Simpson, acusado de matar a ex-mulher e seu namorado, a série constrói uma temporada com um arco dramático muito sólido, progressivo e causal, que parte dos preâmbulos do crime até o seu desfecho nos tribunais. Como privilegia uma reconstrução histórica (inclusive, com eventuais imagens de arquivo) dentro de um arco dramático clássico de temporada, a série se vê diante de um dilema: como tornar o clímax, o ponto de tensão da narrativa, um evento de fato potente, se o público já conhece o desfecho da trama? A resposta, a nosso ver, está no uso da continuidade intensificada

Desenvolvido por David Bordwell para falar das técnicas temáticas, narrativas e estilísticas de intensificação da continuidade clássica promovida pelos cineastas dos anos 1960 e 70, o conceito de continuidade intensificada (2006) funciona como um excelente operador analítico para compreender, no caso da série em questão, como um evento narrativo particular pode exigir modos diferentes de composição estilística para contribuir, determinantemente, na sustentação do arco dramático. Na nossa análise, vamos mostrar como a série se vale das quatro técnicas de estilo elencadas por Bordwell para definir a Continuidade Intensificada no cinema hollywoodiano contemporâneo: edição rápida, extremos bipolares de comprimento de lentes, dependência de closes e movimentos de câmera amplos.
Bibliografia

BORDWELL, David. The way hollywood tells it. California: California University Press, 2006.

BUTLER, Jeremy G. Television Style. Nova Iorque: Rotuledge, 2009.

MACHADO, Arlindo. A televisão levada a sério. São Paulo: Senac, 2000.

MITTELL, Jason. Complex TV: The Poetics of Contemporary Storytelling. Nova Iorque: NYU Press, 2015.

SILVA, Marcel Vieira Barreto. Origem do drama seriado contemporâneo. Revista Matrizes, USP. V. 09, N. 01, jan-jun, 2015. p. 123-147.