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  Título
Entre meios e médiuns: espectros em Séances de Guy Maddin
Autor
Rodrigo Faustini dos Santos
Resumo Expandido
Séances (2016), de Guy Maddin, é um site que, a cada acesso, constrói filmes curtos ao remixar cenas filmadas pelo próprio cineasta, disponíveis para uma única sessão. Os roteiros da obra já são em si amálgamas, imaginados a partir da apropriação das sinopses de filmes perdidos e projetos não realizados de cineastas das primeiras décadas do século XX.

Embora as iterações das cenas não se repitam, os títulos únicos de cada filme são registrados no site, reencenando a efemeridade dos projetos originais que inspiraram Séances. A sensação de perda é multiplicada na obra através dessas escolhas e pelas imagens ruidosas que a povoam: enquanto suas narrativas costumam abordar memória, amnésia, crises de identidade e espectros, a própria superfície desses filmes é tomada por compressões digitais e filtros que simulam degradações fotoquímicas. Proponho discutir Séances, portanto, sob essas tensões intermidiais.

Séances aborda a criação intermidial de forma particular ao propor a imagem cinematográfica enquanto assombração e espectro, revivida numa séance ambígua – entre a sessão de cinema e a sessão sobrenatural, que conjura as imagens desses filmes esquecidos. Investirei na metáfora fantasmagórica proposta pela obra ao cruzá-la com discussões de Tom Gunning acerca do phantasm como emblema para a ontologia da imagem em movimento - “imagens que oscilam entre visibilidade e invisibilidade, presença e ausência, materialidade e imaterialidade [...] vultos, enquanto fantasmas revelando presunções acerca da natureza visual da imagem, ainda assombram a paisagem moderna de mídias.” (GUNNING, 2007, p.99). Apresentando imagens ruidosas que virtualmente evocam o meio obsoleto da imagem fotoquímica ao simular sua materialidade (e que afinal, residem num meio dito virtual), Maddin explora a continuidade dessa fantasmagoria enquanto figura para pensar o cinema no contexto midiático contemporâneo. Aqui a película ressurge desmaterializada, filtro digital ectoplasmático que intervém nas imagens voláteis dessa conjuração mediúnica do passado.

Como colocam Gauldreault e Marion, o cinema persiste na era digital enquanto presença espectral em dissolução pelos novos meios, como objeto histórico de museu, numa pós-vida na qual apenas um eco de si ressoa: o seu efeito cinemático. Ao mesmo tempo, essa presença multiforme reflete a existência híbrida e impura das primeiras décadas do cinema, retorno que habilita a observação das continuidades e rupturas da prática cinematográfica, na contramão de genealogias canônicas, revelando caminhos que expõem o cinema como “hipermídia que não se reconhece como tal” (MARION, 2013, p.132), interstícios nos quais Séances investe.

Pensar Seánces sob esses termos é observá-lo sob o pano de fundo da “arqueologia de mídias” discutida por autores como Elsaesser (2004), Parikka e Huhtamo (2013) que destacam como “Becos, perdedores, e invenções que nunca se materializaram têm estórias importantes a contar” (HUHTAMO, 2013, p.3). Imperativa essa que movimenta novas perspectivas nas discussões da história do cinema, privilegiando histórias alternativas e hipotéticas, cruzamentos e divergências, elementos-chaves para pensar o projeto de Maddin, que investe numa impureza material da imagem cinematográfica e em sua troca com diversas disciplinas artísticas e suportes audiovisuais.

Maddin se apropria do cenário atual de incertezas ontológicas sobre o cinema e desse reinvestimento nas “histórias não contadas” do meio, nesse projeto que se satura da perspectiva “impura” que movimenta a arqueologia de mídias, articulada por esses espectros que assombram o digital – “Talvez seja aconselhável, no caso do cinema e seus encontros com a televisão e as mídias digitais, que se discuta não apenas um passado, presente e futuro, mas também uma arqueologia de possíveis futuros e da presença perpétua de diversos passados?” (ELSAESSER, 2004, p. 113). Observo portanto que a imagem enquanto fantasma assume esse percurso em Séances.
Bibliografia

ELSAESSER, Thomas. The new film history as media archeology. Cinémas, Canadá, volume 14, nº 2-3, pp. 75-117, primavera 2004.



GUNNING, Tom. To scan a ghost: the ontology of mediated vision. Grey Room, EUA, vol.39, nº 26, pp.94-127, inverno 2007.



HUHTAMO, E.; PARIKKA, J. (ed.). Media Archeology: Approaches, applications and implications. EUA: University of California Press, 2011. 356p.



JENKINS, H.; THORBURN, D. (ed.). Rethinking media change: The aesthetics of transition. Inglaterra: The MIT Press, 2003. 404p.



KRAUSS, Rosalind. A voyage on the north sea – art in the age of the post-medium condition. Nova York: Thames & Hudson, 1999. 67p.



MARION, P.; GAUDREAULT, A. O fim do cinema? Uma mídia em crise na era digital. São Paulo: Papirus, 2016. 208p.



SÉANCES. Disponível em . Último acesso: 21/03/2017.