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  Título
O ator da desconfiança no cinema de Christian Petzold
Autor
David Ken Gomes Terao
Resumo Expandido
Christian Petzold propõe em seus filmes, junto a atores como Nina Hoss, Benno Furmann e Julia Hummer, o que se pode chamar de um estado do “ator da desconfiança”. Elemento comum nos filmes de suspense e mistério, que sugere sempre a suspeição e possibilidade de segundas intenções e mentiras que coloquem os personagens em perigo, a desconfiança surge nos filmes de Petzold como resultado do mal-estar de um contexto político que contamina a esfera privada.



Esse estado é construído a partir de um registro registro minimalista e discreto, fugindo totalmente a uma proposta do excesso. Inseridos em narrativas atravessadas por matrizes melodramáticas, os atores de Petzold se portam em cena de maneira quase inexpressiva, trazendo em estados de impotência ou indiferença seu corpo. Eles não explodem em cenas de briga, nem se beijam apaixonadamente ou são filmados em cenas de sexo quando seus personagens se envolvem emocionalmente. Os atores, ao não adentrarem totalmente os personagens pelo realismo psicológico do naturalismo, evidenciam na frieza de seus gestos a incapacidade dos personagens de se envolverem com mais profundidade nas relações ou de se encaixarem no lugar em que se encontram.



Petzold dá continuidade ao que Rainer Werner Fassbinder propôs na década de 1970, ao incorporar ao melodrama o efeito do estranhamento (Verfremdungseffekt) proposto por Bertolt Brecht no teatro, fazendo com que a forma melodramática, que em sua forma tradicional se baseia em uma pedagogia moralizante e uma série de elementos polarizadores do bem e do mal, encontrasse nos personagens uma série de ambiguidades que gerariam por sua vez reflexão a respeito das relações sociais e de poder. No entanto se em Fassbinder o exagero no gesto dos atores expõe seu caráter teatral e metalinguístico, trazido do anti-teatro, o qual o diretor ajudou a fundar, em Petzold o gesto minimalista dos atores é trabalhado na contenção, visando uma outra abordagem no terreno de gêneros cinematográficos, como o já citado melodrama, o suspense e o horror. Longe de um modo que conduza o olhar em uma direção fechada, os atores criam um terreno que pede ao espectador a atenção à imagem e, logo, sua reflexão crítica diante do que vê.



Diversas situações são criadas pelo diretor para que os atores demonstrem a partir do gesto físico ou da palavra uma condição onde os personagens, não conseguindo confiar nas pessoas à sua volta, se entregam à apatia e à impossibilidade de reação às condições às quais estão sujeitos. Um casting em Fantasmas (2005) onde duas garotas tentam uma possibilidade de trabalho e é necessário expor sentimentos pessoais quando as palavras faltam ou uma negociação em Yella (2007) onde para construir uma relação afetiva é preciso saber jogar com o capital de risco. Deslocar-se, fazer planos de fuga, negociar, tudo isso implica relacionar-se e nisso a relação sempre traz um elemento de suspense pela desconfiança que envolve todos os laços.



Essa proposta de atuação pode ser sintetizada em Phoenix (2014), a personagem interpretada por Nina Hoss, uma mulher judia sobrevivente dos campos de concentração passa a interpretar a si mesma diante de seu marido que não a reconhece, através da imitação de seus próprios gestos, de sua caligrafia e da encenação de seu retorno à vida pública após o horror do nazismo, de modo a tentar recuperar o amor perdido de seu marido. O filme traz uma reflexão sobre a própria condição de encenação e atuação, onde o espectador só pode estar diante das imagens enquanto observador crítico de todas as dimensões que esse jogo traz, pela desconfiança dos personagens e pela própria condição de não confiar totalmente naquele esquema narrativo enquanto espectador.



Para estudar a construção desse estado de desconfiança criado na mise-en-scène pela direção de atores, serão feitas análises fílmicas de alguns filmes de Christian Petzold, de modo a compreender como o realizador atualiza a incorporação do distanciamento brechtiano no melodrama.
Bibliografia

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