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  Título
A imaginação melodramática: atualidade de um modelo narrativo
Autor
Lisandro Nogueira
Resumo Expandido
Na experiência cotidiana da pós-graduação, tanto em sala de aula quanto na organização de eventos e nos encontros de orientação, tem sido notável o interesse dos alunos pelo gênero melodramático como chave interpretativa da experiência estética proporcionada pelo cinema contemporâneo.

Parte deste interesse pode ser justificado pela aderência do melodrama a este modelo de entretenimento, o que lhe garante, adicionalmente, um enorme escopo de influência (ainda maior se considerarmos suas potencialidades transmidiáticas, que englobam a literatura, a TV, a Internet e até os videogames). A extensão do território estético coberto pela forma melodramática é vasta, mas também sua penetração é importante, sua relevância na construção do imaginário individual e social. Pois o melodrama oferece consolo ao indivíduo, reinstitui uma oposição valorativa ao mundo e, talvez mais importante, resolve esta oposição.

Neste sentido específico ele é mais do que um gênero literário ou cinematográfico, podendo ser entendido como um modo de articularmos existencialmente a experiência do nosso próprio tempo, o que Peter Brooks chamou imaginação melodramática. De fato existem muitos outros modos estéticos de conduzir nossa compreensão da cultura contemporânea, especialmente no cinema , mas nenhum possui a força consoladora – e conservadora – do melodrama.

Para entender o vigor desta forma estética (que está ligada à superação dos limites da estética de gênero) será necessário – e é esta a proposta deste estudo – investigar suas origens no teatro europeu do século XVIII e, posteriormente, na adaptação feita pelo cinema clássico – principalmente Douglas Sirk e D.W. Griffith. Igualmente de suma importância é a investigação da recepção do conceito de imaginação melodramática nos estudos brasileiros de cinema, especialmente no modo como este conceito foi usado por Ismail Xavier para pensar certos elementos do cinema nacional contemporâneo, sua relação com Hollywood e com a indústria do entretenimento.

O objeto é o melodrama cinematográfico, assim como foi concebido na aurora do cinema moderno e delineado acima, e suas transformações ao longo do século XX, inclusive sua apropriação e crítica pelo cinema atual. O propósito é investigar sua passagem do gênero narrativo ao que Peter Brooks denominou imaginação melodramática. Na operação intelectual relatada por Brooks encontra-se a chave de intepretação para a longevidade e a constante atualização do melodrama no cinema, assim como a compreensão de suas possibilidades narrativas – transmidiáticas – no diálogo com diferentes suportes midiáticos abertos à linguagem audiovisual. Ademais, propõe-se também investigar a relação entre cinema e cultura que a forma melodramática possibilita a partir de seus elementos estéticos e narrativos. De alguma forma o cinema funciona como dispositivo para que a dinâmica melodramática se permita oferecer um comentário sobre o mundo contemporâneo, oferecendo consolo e uma possibilidade de construção de sentido atualmente ausente do horizonte mais amplo da cultura. Assim, a pesquisa tentará esclarecer as razões pelas quais o melodrama constitui uma forma estética tão resiliente e capaz de se reinventar de modo tão radical acompanhando as transformações culturais da contemporaneidade? Até onde podemos esposar a tese de Brooks de que o melodrama superou as constrições de um mero gênero narrativo e se tornou uma chave de interpretação da cultura atual? Quais as relações existentes entre a imaginação melodramática e a indústria do entretenimento e porque o melodrama alcançou tão ampla ressonância no cinema?

A análise fílmica foi o método escolhido para pensar os conceitos de "melodrama" e "imaginação melodramática" no cotejo entre o cânone (Griffith, Sirk) e o contemporâneo (Walter Salles, Fassbinder e Mike Leigh) .
Bibliografia

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