Voltar para a lista
 
  Título
De prosa com as imagens - pela etnografia visual e da duração
Autor
Roberta Simon
Resumo Expandido
O presente artigo tem como objetivo refletir sobre as contribuições do aporte metodológico da etnografia da duração para compreensão dos fenômenos fílmicos. Ancorado na perspectiva da fenomenologia bachelardiana para a metodologia da antropologia visual e urbana, a etnografia da duração considera as imagens em seu aspecto dialético e em sua potência para a abertura à imaginação criadora, pelo viés de Benjamin, Bachelard e Durand. Parte-se de uma análise fílmica que considera as imagens visuais e sonoras consteladas por categorias sócio-antropológicas e organizadas por meio de uma montagem narrativa.

O objeto de análise é a crônica vídeo-etnográfica “De Prosa com as Imagens - narrativas, paisagens e movimentos em Porto Alegre”, com pesquisa, direção e roteiro de minha autoria. Este vídeo faz parte de meu projeto de pesquisa de doutorado intitulado “De Prosa com as Imagens”, sob orientação do Prof. Dr. Carlos Gerbase (Pós-Graduação em Comunicação Social/PUCRS), com apoio do grupo de estudos Cinesofia (PUCRS), dos núcleos de pesquisa Banco de Imagens e Efeitos Visuais (BIEV/UFRGS) e Núcleo de Antropologia Visual (Navisual/UFRGS). Trata-se de uma pesquisa interdisciplinar entre os campos da Comunicação e Antropologia que visa compreender como proseamos com as imagens, ainda, de que forma as narrativas diante das imagens em uma exposição são entrelaçadas pelas narrativas biográficas dos personagens e seus contextos socioculturais.

Para tanto, o artigo pretende explorar as dimensões estéticas do tempo e do espaço do objeto fílmico a partir da produção de sentido e de conhecimento da crônica vídeo-etnográfica. Considera-se a crônica um fragmento imagético inscrito em uma pesquisa científica, cuja arqueologia fundante parte de processos de etnografia visual e da ética de restituição, no sentido de Bachelard, Arlaud e Didi-Huberman. Acredito que para uma análise fílmica, os sentidos que a imagem produz estão relacionados às suas formas de produção narrativa da duração e as formas sensíveis de diálogos que se abrem como gatilhos para novas narrativas e imagens. A estética fílmica se encontra no jogo de narrativas e imagens, nas constantes trocas entre produção, filme e recepção, pois na prosa com as imagens essas fronteiras são mais fluidas e diluídas. Nesta perspectiva, a proposta é analisar o vídeo a partir das categorias de visão de mundo e ritmos temporais da etnografia da duração, apresentadas por Cornelia Eckert e Ana L. C. Rocha. Apesar de ser um filme de minha autoria, acredito que o intuito de trazer para debate um processo metodológico de análise fílmica a partir dessa perspectiva pode contribuir para as reflexões que o seminário se propõem.

Trata-se de um vídeo que busca pistas para compreender como proseamos com as imagens. Nele apresentamos Claudio, um pai dedicado a sua família, em busca de trabalho e preocupado com o futuro da juventude em Porto Alegre. Ele passou pela exposição dos alunos de Ciências Sociais da UFRGS, intitulada "Etnografias Compartilhadas: narrativas visuais e sonoras do viver urbano em Porto Alegre" e foi afetado pelas imagens no saguão da Reitoria da UFRGS. Atravessado por suas narrativas biográficas, Claudio dialoga com os três projetos expográficos que faziam parte da exposição: "Horta Comunitária", "Lambendo a cidade" e "Feira de Hip Hop". Esta exposição foi resultado de um processo trocas de conhecimento no curso de Antropologia Visual. Na ocasião, filmes etnográficos provocavam os debates em sala de aula a partir de leituras temáticas para análise das imagens, como, por exemplo, questões epistemológicas e metodológicas da pesquisa ética em antropologia visual; paisagens e intervenções urbanas; narrativa visual da memória coletiva; o legado da antropologia compartilhada de Jean Rouch; e a força da imagem nos movimentos de justiça social. A crônica video-etnográfica se insere nesse contexto de prosear com as imagens que nos afetam, nos habitam e nos formam. Com as imagens que duram.
Bibliografia

BACHELARD, Gaston. A dialética da duração SP, Ática, 1988.

BACHELARD, Gaston. O Ar e os Sonhos. Ensaio sobre a imaginação do movimento. 2a. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2001.

BENJAMIN,Walter. Magia e técnica, arte e política. Obras Escolhidas. São Paulo, Brasiliense, 1993.

BENJAMIN, Walter. O narrador. Considerações sobre a obra de Nikolai Leskov. In: Magia e técnica, arte e política. Ensaios sobre Literatura e História da Cultura [1936] – Obras Escolhidas, Volume 1 – Walter Benjamin [1892-1940]. São Paulo: Brasiliense, 1994. p. 197 – 221.

DURAND, Gilbert. As estruturas antropológicas do imaginário. Lisboa, Presença, 1984.

ECKERT, Cornelia; ROCHA, Ana Luiza Carvalho da. Etnografia da Duração: antropologia das memórias coletivas em coleções etnográficas. Porto Alegre, Marcavisual, 2013

HUBERMAN, Didi. Devolver uma imagem. In: ALLOA, Emmanuel (org.) Pensar a imagem. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2015.