Voltar para a lista
 
  Título
Segredo, intimidade, comunidade: o cinema como abertura para o outro
Autor
Samuel Leal Barquete
Resumo Expandido
É notável na produção audiovisual xavante um certo regime imagético pedagógico, que reflete o modo dos Xavante fazerem suas alianças. Na produção audiovisual há um controle acerca da representação identitária, para que corresponda à forma como eles se veem e desejam ser vistos.

Nesse contexto, partiremos do filme Oi’ó : a luta dos meninos (2009) de Caimi Waiassé para pensar como tal regime atinge a saturação. O filme mostra um ritual onde meninos pequenos lutam entre si com uma raiz. Eles passam pelo ritual anualmente até o fim da infância. Cada realização marca também a iniciação dos mais velhos do grupo nos ciclos da adolescência.

O filme se esforça por localizar a cerimônia no sistema etário xavante. Para isso, a montagem sempre remete as imagens a esse processo de passagem entre as fases da vida, numa intenção de controlar a forma como as imagens serão recebidas. Nisso consiste o esforço pedagógico do filme, predominante no início e no fim. Mas na sequência clímax, as lutas anunciadas no título, emerge um regime imagético carregado de afetos que excedem o projeto narrativo principal, abrindo um espaço comum a ser compartilhado entre indígenas e não-indígenas.

Há portanto uma tensão que atravessa o filme. Propomos as noções de segredo e intimidade enquanto operadores de cada agenciamento na montagem. Partindo do regime narrativo predominante, temos que as operações implicadas pelo ritual demandam uma reposição no nível das imagens. O segredo aqui dá o tom da composição dos planos e da organização da narrativa. É preciso reproduzir a expectativa e o medo em que são mantidos os meninos antes das lutas, garantindo um primeiro campo de ressonância do ritual no filme. A própria eficácia do rito é posta em questão, daí necessidade de um controle comunitário sobre a narrativa.

Paradoxalmente, tal estratégia é tanto mais bem-sucedida conforme as imagens são liberadas para dar movimento aos afetos disparados no rito. Aqui noção de intimidade é central, pois desloca o eixo do filme para dentro da comunidade. Por um lado há uma relação direta entre realizador e ritual, intimidade decorrente da experiência vivida. Por outro lado tal intimidade explode nas imagens e cria um espaço afetivo comum, onde o espectador não-indígena pode se relacionar com a cultura também como experiência vivida. É como se o filme, justamente no clímax, suspendesse suas próprias regras para melhor cumprir o papel a que se propõe na relação com o espectador.

Aqui a ideia de liminaridade é importante, entendida enquanto estado de margem, perigo e suspensão (Turner, 1992). Pro ritual ela é a condição de eficácia, que opera a passagem em questão. No filme ela permite pensar a condição de existência das imagens das lutas, que garantem seu funcionamento se descolando do regime imagético inicial. Assim filme e rito entram em uma segunda ressonância: quando a montagem se descola da “forma” do ritual ela o reencontra na intensidade das imagens.

Pensando com Comolli (2008), o filme propõe uma montagem que solicita o engajamento ativo do olhar, perturba o lugar do espectador que se constitui passivo em toda a primeira parte. Aqui uma terceira ressonância: espectadores do filme e participantes do ritual são conduzidos numa trajetória de desestabilização que os prepara para uma transformação por vir.

No final a estrutura inicial será reposta, mas tanto meninos quanto espectador já são outros. O choro de uma senhora pelos filhos marca a ruptura. Eles são tirados de casa, perdem seus nomes e entram em uma nova vida. O espectador também se recupera de um choque. Uma ideia de alteridade certamente se desfez. O que irá substitui-la permanece em aberto. Medo e intimidade já não operam mais sentido algum. Resta a comunidade que reúne espectador e meninos, abertos para transformações ainda incertas. Mais que explicar, o filme afeta, e com isso o contato intercultural se abre para além do próprio filme.
Bibliografia

BRASIL, André. De uma imagem à outra: traduções do visível e do invisível em Curadores da terra-floresta (2013) e Xapiri (2012). São Paulo: Ed. SESC, no prelo.

COMOLLI, Jean-Louis. Ver e poder: a inocência perdida. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2008.

GARNEAU, Michèle. Ser ou não ser o autor de seus documentários. In: ARAÚJO, Juliana; MARIE, Michel. Pierre Perrault: o real e a palavra, pp. 77-87. Belo Horizonte: Balafon, 2012

GONÇALVES, Marco Antônio. O Real Imageinado. Etnografia, Cinema e Surrealismo em Jean Rouch. Rio de Janeiro: Topbooks, 2008

GRAHAM, Laura. Image and instrumentality in a Xavante politics of existential recognition: The public outreach work of Etenhiritipa Pimentel Barbosa. In: American Ethnologist, Vol. 32, No. 4, pp. 622-641. 2005.

MIGLIORIN, Cezar. Território e virtualidade: quando a “cultura” retorna no cinema. In: Revista Famecos, Porto Alegre, v. 20, n. 2, pp. 275-295, maio/agosto, 2013

TURNER, Victor. Anthropology of Performance. New York: PAJ Publications, 1992.