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  Título
O cinema animado dos artistas plásticos de Pernambuco
Autor
Marcos Buccini Pio Ribeiro
Resumo Expandido
Em seus primórdios, o cinema foi ‘reivindicado’ tanto pelos artistas que queriam torná-lo narrativo e teatral, quanto pelos artistas plásticos, em especial os vanguardistas da década de 1920. Dos primeiros, nasce o cinema comercial e, destes últimos, surge o cinema experimental. A arte animada também se desenvolve dentro destas duas frentes antagônicas. Enquanto cartunistas usavam o cinema animado para criar narrativas em cima de piadas, alguns artistas plásticos vislumbraram neste novo meio a possibilidade de expandir as propriedades da pintura e escultura ao dotá-las de movimento.



Eventualmente, o cinema de animação experimental acabou sendo ofuscado por uma produção comercial e ortodoxa, porém, ele nunca deixou de existir e continua vivo em diversas cinematografias. Em Pernambuco, existem diversos exemplos deste tipo de obra. A partir de uma catalogação de 179 títulos animados, foram encontrados oito filmes realizados por artistas plásticos no estado.



A primeira experiência documentada foi a trilogia Dinâmica dos traços (1972), na qual o artista plástico Ypiranga Filho aproveita um rolo de filme Super-8 velado para realizar uma intervenção direta sobre a película. Raspando a emulsão em vários sentidos usando lâminas de barbear, lixas e palha de aço, o artista obteve uma ‘dança’ de traços. Os filmes foram exibidos em mostras no Recife e, no começo dos anos 2000, o Dinâmica dos traços II participou da Mostra Marginália 70 – Experimentalismo no Super-8 Brasileiro.



Na década de 1980, Paulo Bruscky produz 3 xerofilmes. Nesta técnica, as imagens são capturadas por uma máquina fotocopiadora e, em seguida, as cópias são passadas para película. Apesar da forma inusitada de usar a fotocopiadora como dispositivo cinematográfico, em termos cinéticos, o resultado é similar ao pixilation ou stop motion com objetos. Porém, plasticamente, o xerofilme possui particularidades: a planificação dos elementos dada pela distorção dos objetos pressionados contra o vidro e a falta de profundidade que ocorre pela incapacidade do mecanismo de registrar imagens que estão muito afastadas.



Os filmes produzidos foram: Xeroperformace (1980), em que o próprio autor se debruça sobre a máquina; LMNUWZ Fogo! (1980), o artista coloca fogo na máquina enquanto ela registra flagrantes de sua própria destruição; e Aépta (1982), realizado com objetos sobre uma fotocopiadora colorida.



Em 2006, o artista plástico Márcio Almeida realizou uma videoinstalação, Entre o novo e o nada. A obra consistia em alocar uma família moradora de um barraco para uma casa de alvenaria. O barraco então seria desmontado e remontado no MAC (Museu de Arte Contemporânea). Acompanhando a instalação, havia um fotodocumentário animado mostrando os bastidores da produção. O filme, feito a partir de 5 mil fotos, acabou ganhando uma trajetória independente da instalação, ao ser exibido em mostras e festivais. Trata-se de mais uma forma de hibridização, que posiciona a obra entre animação, documentário e obra de arte.



Em 2010, As Aventuras de Paulo Bruscky acompanha as experiências do artista dentro do Second Life. A técnica utilizada é o Machinima, que consiste em usar uma plataforma digital como espaço diegético para ‘gravar’ um filme. A obra explora os limites entre ficção e documentário, uma vez que Bruscky o ‘sujeito retratado’ notadamente participa ativamente do conceito do filme, tornando-se também ‘sujeito autor’.



Ao observarmos estes oito filmes, podemos notar como artistas plásticos, ao extrapolar o seu território de origem, conseguem trazer novas ideias e novas experiências para o cinema animado. Talvez isto se dê pelo motivo de que as artes plásticas serem, por si só, um terreno rico em experimentações e seus artistas não possuírem as ‘amarras’ de um animador tradicional em relação à técnica, dispositivos, processos, conceitos e estética. Através dessa troca de vivências, ambos os campos ganham e enriquecem seus repertórios e experiências.
Bibliografia

DENIS, Sébastien. O cinema de animação. Lisboa: Texto & Grafia, 2010.



MORAN, Patricia . Deslocamentos de Paulo Bruscky por Gabriel Mascaro: um documentário no Second Life. In: Revista Z Cultural, (UFRJ), v. VIII, p. 1-s/n, 2012. Disponível em: . Acesso em: 04 abr. 2016.



QUARESMA, Christiane. Imagem técnica, experiência artesanal: Apontamentos para uma significação da prática de animação no cinema experimental. In: XXXVIII Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação – Intercom, Rio de Janeiro, 2015. Anais do XXXVIII Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação – Intercom. Rio de Janeiro, 2015.



SANTOS, Priscila. Redescobrindo Paulo Bruscky: Os três caminhos de sua produção audiovisual. In: VI Encontro dos Núcleos de Pesquisa da Intercom, 2006, Brasília. Anais do VI Encontro dos Núcleos de Pesquisa da Intercom. Brasília, 2006.