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  Título
Autoria e autobiografia na obra documental de Chantal Akerman
Autor
José Francisco Serafim
Resumo Expandido
A diretora belga Chantal Akerman faleceu em 2015, mas deixa uma obra das mais instigantes para se refletir, sobretudo, sobre o cinema autoral, ensaístico e (auto)biográfico. Sua obra extrapola fronteiras tanto nacionais quanto no que tange aos gêneros fílmicos. Akerman deixou uma vasta obra composta de quase cinqüenta filmes nos quais trouxe suas inquietações face ao mundo em que vivemos. Se algumas das ficções da cineasta se aproximam de um cinema mais clássico, sua obra documental tem propostas estéticas diametralmente opostas, podendo por vezes ser considerada radical. Questões vinculadas ao cinema na primeira pessoa, ou autobiográfico, estão presentes em muitos fóruns de debate e tem mostrado ser um terreno fértil igualmente na realização de filmes documentários. Importante salientar que muitos documentários abordando questões íntimas e pessoais do cineasta são mostradas por vezes de forma impudica. C. Akerman, diferentemente de apresentar um olhar voyeurístico em seus documentários, nos apresenta uma obra pessoal, ensaística e autobiográfica, sobretudo em três documentários que colocaram frontalmente a presença da cineasta nos filmes: Letters from home (1977), Chantal Akerman par Chantal Akerman (1997) e No home movie (2015). Esta comunicação visa se debruçar sobre os filmes Letters from home e No home movie, por se tratar de duas obras realizadas com um grande intervalo de tempo entre elas, e por trazerem questões estético-formais bastante diferenciadas. No filme realizado em Nova Iorque, Letters from home, conheceremos a cineasta através de cartas escritas pela mãe e lidas pela cineasta enquanto transita pelas ruas da cidade. Em nenhum plano a realizadora nos será apresentada, ouviremos somente sua voz. Já no ultimo filme da realizadora, No home movie, veremos a cineasta em quase toda a duração do filme, trata-se de filmar a relação da diretora com sua mãe, já doente e que havia falecido em 2014. Esta comunicação tem por proposta dialogar com duas obras realizadas com quase vinte anos de diferença, mas que apresentam similitudes, a começar pela equipe extremamente reduzida, composta unicamente pela diretora, que filma no primeiro caso as ruas da cidade onde vive, Nova York e no segundo registra momentos vividos na casa de sua mãe como também em suas estadias nos Estados Unidos, quando nos é apresentada dialogando através do dispositivo Skype com sua mãe que ficou na Bélgica. Outro elemento unificador entre os dois filmes é a presença da mãe da diretora. Trata-se de filmes realizados de forma quase confidencial com um viés autoral e certamente ensaístico, trazendo elementos de sua vida e da relação que estabelece com sua mãe. O cinema documental autobiográfico e ensaístico está na atualidade, sobretudo a partir dos anos 1960, sendo um subgênero que conta com uma ampla produção observada através do grande número de filmes que são realizados anualmente em todo o mundo. Nosso objetivo é o de refletir sobre esta questão através da análise das estratégias e dos dispositivos utilizados por C. Akerman para a realização de seus documentários autobiográficos, em especial nas obras autobiográficas Letters from Home e No home movie.
Bibliografia

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