Voltar para a lista
 
  Título
Drama Inacabado, recitado: políticas do antinaturalismo em duas obras
Autor
Roberto Ribeiro Miranda Cotta
Resumo Expandido
“E não se exigiu que os atores de alguma forma ‘interpretassem’ [spielen] o seu texto, mas que, ao contrário, o recitassem [rezitieren] como uma partitura bem definida” (STRAUB, 2012, p.3). O presente estudo traz como ponto de partida esse pressuposto alinhavado pelo cineasta Jean-Marie Straub durante o processo de confecção de sua segunda parceria com Danièle Huillet - ainda que esta não tenha sido creditada como diretora -, o média-metragem "Não Reconciliados ou Só a violência ajuda, onde a violência reina" (Nicht Versöhnt oder Es hift nur Gewalt, wo Gewalt herrscht, 1965).



Livremente adaptado do romance "Bilhar às nove e meia" (Billard un halb zehn, 1959), de Heinrich Böll, o filme notabiliza-se por uma conjunção de escolhas estilísticas que beiram a antinaturalidade na composição de suas formas, seja no posicionamento diagonal da câmera em relação aos atores; no ritmo intenso e propositalmente desarmônico de montagem, demarcado por uma reunião de cenas amparadas em blocos com temporalidades e significações diversas vezes incongruentes; bem como mediante o compasso e a cadência presentes nos diálogos proferidos pelos personagens, ora hasteados em uma firmeza na entonação das falas, ora representados por empostações de voz ou jogos associativos de palavras que emanam a musicalidade mencionada pelo cineasta. Como aponta Dumans (2016), “mesmo sem entender a língua alemã, somos surpreendidos pela rapidez com que as frases são ditas, e pelo modo súbito como começam e param, de modo que os espaços entre o fim de um texto e o início do outro abrem verdadeiros fossos de continuidade narrativa (p.38).



As tônicas estruturais articuladas nesse filme abriram caminho para a consolidação de um estilo de encenação cinematográfica particular presente em quase toda a obra de Straub e Huillet, mas também possibilitaram postulados de influência percebidos nas predileções estéticas de diversos outros diretores, como é o caso, por exemplo, de Leon Hirszman em "São Bernardo" (1972) e Paulo César Saraceni em "O viajante" (1999). Embebidos de uma antinaturalidade entranhada em seus gestos formais, tais filmes cimentam suas escolhas de mise en scène em função de uma articulação dissonante entre ações narradas e gestos encenados, demarcada por um antinaturalismo presente no modo como atrizes e atores pronunciam suas falas, movimentam seus corpos, gesticulam em cena e lançam seus olhares sobre outros personagens ou para o extracampo da imagem. Em ambos os filmes, também adaptados de obras literárias, as interpretações do elenco parecem contra-argumentar a discursividade política e social descortinada pelos demais elementos estilísticos organizados, criando uma fenda estrutural entre aquilo que é representado pela perspectiva de seus realizadores e a autonomia interventiva legada à atuação dos personagens.



"São Bernardo" é predominantemente composto por uma planificação estruturada em tableau, quase sempre ancorada em um posicionamento estático de câmera, que observa os personagens muitas vezes à distância e estabelece uma perspectiva discursiva que se contrapõe à narração do protagonista Paulo Honório (Othon Bastos), cujo ponto de vista orienta e desorienta o espectador. "O viajante" é construído a partir de uma estruturação operística de encenação, regida por uma mescla entre a composição de planos estáticos e uma recorrência mais frequente de movimentações de câmera e personagens. A narrativa se desvela de modo paralelo sob as perspectivas de Ana de Lara (Marília Pêra) e Sinhá (Leandra Leal), sendo permeada pelas mudanças provocadas pela presença de Rafael (Jairo Mattos) em suas vidas. Diante dessas acepções, esta pesquisa se propõe a analisar o antinaturalismo encenado nesses dois filmes, com o intuito de encontrar as tonalidades políticas existentes entre as articulações de mise en scène propostas por Hirszman e Saraceni e a gestualidade, movimentação corpórea e oralidade antinaturais empreendidas pelos protagonistas das duas obras.
Bibliografia

ASTRUC, Alexandre. Naissance d’une nouvelle avant-garde: la caméra stylo. Paris/França: L’Écran français, 1948.



DUMANS, João. As contradições necessárias. In: GUIMARÃES, Victor; SOUTO, Mariana (orgs.). Cadernos do Cineclube Comum. Volume 1: Políticas do Cinema Moderno. Belo Horizonte: SEC/MG, 2016.



GARDNIER, Ruy. Engajamento material. In: FERNANDES, Daniela (org.). Livreto do Curta Circuito. Belo Horizonte: SEC/MG, 2015.



ROCHA MELO, Luís Alberto. São Bernardo. Contracampo, nº74. Disponível em: http://www.contracampo.com.br/74/saobernardo.htm. Acessado em 05/abr/2017.



SOARES Jr., José Luiz Soares. O viajante: a festa de Deus. In: FERNANDES, Daniela (org.). Livreto do Curta Circuito. Belo Horizonte: SEC/MG, 2015.



STOICHITA, Victor. L’instauration du tableau: Métapeinture à l’aube des temps modernes, Genebra/Suiça: Librarie Droz, 1999.



STRAUB, Jean-Marie. Não interpretar: recitar. In: STRAUB-HUILLET; GOUGAIN (orgs.). Straub~Huillet. São Paulo: CCBB, 2012.