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  Título
O mercado exibidor e o vídeo doméstico no Brasil
Autor
Filipe Brito Gama
Resumo Expandido
A exibição é o setor da cadeia audiovisual que “opera os meios físicos e os sistemas necessários ao consumo final do produto audiovisual” (SILVA, 2009, p. 27), permitindo o contato do público com as obras. Nas últimas décadas, o campo da exibição sofreu uma série de transformações, com o surgimento de formatos em suportes e meios eletrônicos e o aparecimento de novas “janelas de exibição”, como por exemplo, o crescimento dos segmentos de mercado voltados ao consumo doméstico, seja através da mídia física (vídeo doméstico ou home video) ou pelo consumo da mídia digital, com as plataformas de Vídeo Sob Demanda (VOD). Com as modificações tecnológicas e as mudanças nas estruturas do mercado audiovisual, o vídeo doméstico ganha força na indústria cinematográfica, alterando a forma de se consumir filmes. Este mercado é, segundo a Ancine (2011, p. 04): “[...] o conjunto de atividades encadeadas, realizadas por diversos agentes econômicos, necessários para ofertar ao consumidor final, a título oneroso, obras audiovisuais em qualquer suporte de mídia pré-gravada”.

No Brasil, o vídeo doméstico surge efetivamente nos anos 1980, com o início da produção de videocassetes no país (DE LUCA, 2010). Como aponta Almeida e Butcher (2003, p. 89): “Sua penetração e crescimento se deram de forma completamente descontrolada e, num curto período de tempo, foram abertas milhares de locadoras no Brasil”. Na segunda metade da década supracitada já se pode compreender o crescimento deste mercado, que em 1987 contava com mais de 03 milhões de videocassetes vendidos, 05 mil locadoras, 60 distribuidores e 2.500 títulos certificados, segundo dados do Concine (SIMIS, 2010). Nos anos 1990, o mercado de home video cresce, com um grande número de distribuidoras especializadas no ramo, o aumento na quantidade de títulos lançados e o surgimento de novas videolocadoras em todo país: 08 mil em 1991; 12 mil em 1994; e 17 mil em 1997, ano de ápice deste segmento (SILVIA; LOPES; OLIVEIRA; 2013). O crescimento das videolocadoras acompanha a crise do mercado exibidor de salas de cinema, especialmente no interior do Brasil, fazendo com que esses estabelecimentos de locação de vídeo fossem fundamentais para o consumo do produto audiovisual nessas localidades.

A passagem para os anos 2000 e a chegada da tecnologia do DVD amplia e difunde o consumo doméstico de filmes (ALMEIDA; BUTCHER, 2003). Porém, os anos subsequentes apresentam o declínio deste mercado, com a redução do número de títulos lançados (cai de 2.190 em 2006 para 811 em 2015, segundos dados da Ancine) e o fechamento da videolocadoras na maior parte do Brasil (segundo a UBV, o número reduz de 9.000 em 2007 para 5.000 em 2010). Associa-se a isso o crescimento de outros mercados, como o da TV por Assinatura e o aumento do interesse do espectador por ver os filmes e demais conteúdos audiovisuais em plataformas de VOD. Além disso, deve-se pontuar a aumento da pirataria dos filmes na era digital, tanto com a mídia física quanto através do download ilegal.

Assim, novas formas de consumo audiovisual surgem com grande força no mercado cinematográfico, permitindo ao usuário a liberdade e o maior poder de escolha do conteúdo, além de autonomia no processo, sem sair de casa (NUDELIMAN; PFEIFFER, 2010). Existem no Brasil empresas de VOD que atuam por meio da internet (Over-the-top) e também as que operam por rede dedicada, através da TV por assinatura. Em 2015 havia no país segundo a Ancine, mais de 31 serviços de VOD, destacando-se entre eles a Netflix, com cerca de 06 milhões de assinantes, segundo dados estimados (e utilizados por 71% dos usuários de internet no Brasil para ver filme). Torna-se evidente que o consumo doméstico do produto cinematográfico cresceu significativamente nas últimas décadas, mudando os hábitos do consumidor brasileiro e alterando as dinâmicas de negócios nos segmentos de mercado tradicionais, como a Televisão, cada vez mais adaptada a estrutura de conteúdo sob demanda.
Bibliografia

ALMEIDA, P. S.; BUTCHER, P. Cinema, desenvolvimento e mercado. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2003.

ANCINE. Mapeamento – Vídeo doméstico 2010. SAM/ANCINE: 2011.

LUCA, L. G. A. de. O mercado exibidor brasileiro: do monopólio ao pluripólio. In: MELEIRO, Alessandra. (org.). Cinema e mercado. São Paulo: Escrituras Editora, 2010.

NUDELIMAN, S.; PFEIFFER, D. Novas janelas. In: MELEIRO, Alessandra. (org.). Cinema e mercado. São Paulo: Escrituras Editora, 2010.

SILVA, J. G. B. e. Comunicação e indústria audiovisual: cenários tecnológicos e institucionais do cinema brasileiro na década de 90. Porto Alegre: Sulina, 2009.

SILVIA, L. F. da; LOPES, M. dos S.; OLIVEIRA, P. Sergio G. de. A mudança no mercado de videolocadoras sob a perspectiva da ecologia das populações organizacionais. Revista Ciências Sociais em Perspectiva, Vol. 12, nº 22, 2013.

SIMIS, A.. Concine 1976 a 1990. In: RUBIM, A. C.; FERNANDES, T.; RUBIM, I. (Org.). Políticas Culturais, Democracia e Conselhos de Cultura. Salvador: UFBA.