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  Título
Vingança e estética realista em “Matar um Homem”
Autor
Ana Ângela Farias Gomes
Resumo Expandido
O filme “Matar um Homem” (2014) aborda um caso real ocorrido no Chile, onde uma família sofre atos de violência e ameaças, contando apenas precariamente com a ajuda do Estado para se proteger. Constrói-se, portanto, uma demanda por vingança, único modo para que pai, mãe e casal de filhos possam viver em paz. Mas como viver em paz quando é necessário praticar um ato de violência grave?

A questão, que a princípio convoca um debate ético-moral tão comum às narrativas do melodrama, ganha na obra de Alejandro Fernández Almendras outros contornos. É que este filme se inscreve num conjunto de produções latinas recentes que abordam a violência explorando, em maior ou menor grau, uma visão política sobe o cotidiano do homem ordinário levado à situação de ter que se vingar.

Elemento constante em gêneros tradicionais como o western e o melodrama, a vingança agencia a figura do herói. Mas em “Matar um Homem”, o protagonista não demonstra vocação para o heroísmo. Ele adia ao máximo assumir tal papel, buscando permanecer no lugar do ressentido, aquele que, segundo Kehl (2004), persiste no sentimento de mágoa, na repetição da queixa.

A história se passa em um bairro de classe média baixa e mostra, sem nunca precisar explicitar do ponto de vista de um discurso mais direto, que a postura omissa do Estado é forte mola propulsora do conflito em questão. A dimensão política do filme pulsa tanto por conta deste aspecto, quanto pela estética realista usada por Almendras. Nada ameniza a brutalidade das cenas, ao passo que também nada as espetaculariza. O protagonista é o herói que não deseja esse papel.

“Matar um Homem” se inscreve em um conjunto de filmes latinos contemporâneos que atualizam o conceito do gênero no cinema (melodrama, terror etc.), lançando mão de aspectos desses gêneros, mas dentro de um sentido político. “O Som ao Redor” (2012) é outro filme que opera com lógica semelhante: o gênero do terror surge em cenas como um dispositivo a estabelecer tensões metafóricas que, ao fim e ao cabo, buscam uma discursividade de potência política.

A análise aqui proposta pretende investigar o diálogo que essas obras – e em especial “Matar um Homem” – estabelecem entre estética realista e elementos recorrentes em cinemas de gênero, como é o caso da vingança.

Marcados por uma noção de descentramento, potencialmente classificados dentro do largo guarda-chuva conceitual do world cinema, essas obras trazem muito frequentemente a marca do registro do indivíduo comum, do periférico, do que em alguma medida ocupa um espaço marginal (Prysthon, 2009). A esta mirada soma-se, não por acaso, um uso realista da linguagem cinematográfica.

Se faz sentido a noção de “estética geopolítica” de Jameson (1995), no caso desses filmes a estética realista opera em tom de resistência ideológica. Uma certa noção dispositiva apriorística baseada no que Barthes (2004) ironicamente chamou de “aquilo que se passou realmente”, ou “o real concreto”. É desse hibridismo entre estética do real e elementos tradicionais de gênero narrativo que o trabalho trata.
Bibliografia

BARTHES, Roland. O efeito de real. In: O rumor da língua. São Paulo: Cultrix, 2004.

JAMESON, Fredric. La estética geopolítica. Barcelona, Espanha: Paidós Ibérica, 1995.

_____________________ Pós-modernismo: a lógica cultural do capitalismo tardio. São Paulo, Ática, 2002.

KEHL, Maria Rita. Ressentimento – Clínica psicanalítica. SP: Casa do Psicólogo, 2004.

METZ, Christian. A significação no cinema. São Paulo: Perspectiva, 2007.

PRYSTHON, Angela. Do terceiro cinema ao cinema periférico – Estéticas contemporâneas e cultura mundial. Revista Periferia, Rio de Janeiro, UERJ, v.1, n.1, jan/jun.2009.

STAM, Robert. A fenomenologia do realismo. In: Introdução à teoria do cinema. Campinas, SP: Papirus, 2013.

XAVIER, Ismail. Corrosão social, pragmatismo e ressentimento – vozes dissonantes no cinema brasileiro de resultados. Novos Estudos Cebrap, São Paulo, julho.2006, p. 139 – p. 155.