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  Título
Em mundo de telas: crítica e indústria cultural
Autor
Esther Hamburger
Resumo Expandido
O conceito de indústria cultural expressa a expansão da lógica capitalista para o campo da produção de cultura. O conceito, nos marcos da Escola de Frankfurt se relaciona à reação ao fenômeno de apoio massivo ao nazismo, que ajudou a gerar uma poderosa força nacionalista e expansionista de consequências mundiais conhecidas. O conceito foi exaustivamente criticado por sua negatividade: ele leva ao desprezo pelos produtos culturais, que reduzidos a mercadoria perdem relação com alguma esperança de transcendência associada ao julgamento estético. Outras vertentes do marxismo sugeriram abordagens diferentes para dar conta da cultura como âmbito de formação e disputa. Raymond Williams comenta a presença do drama na sociedade contemporânea de seu tempo. Na linha de Frankfurt desenvolvimentos apontaram para diferentes noções de espaço público como locus privilegiado de debate e formação de opiniões.

Nesse início de milênio, telas de tamanhos diversos, situadas em plataformas móveis ou imóveis, abertas a interações mais ou menos mediadas, com segmentos diversificados de públicos, em regiões que não necessariamente correspondem a espaços geográficos contíguos, a unidades temporais, a comunidades étnicas, linguísticas, religiosas, ou definidas por traços nacionais. Telas mediam não só exibição mas também a captura e edição. Movimentos sociais, Governos, políticos, emissoras, forças sociais diversas se relacionam através das telas.

A partir de análise sobre dos jogos de tela estabelecidos em torno de uma manifestação específica em que a multidão visa desestabilizar as relações entre fundo e figura no telejornal local essa apresentação problematiza as relações entre imagens em movimento em um jogo de telas e a crítica.

No âmbito do pensamento pós-estruturalista, cabe resgatar nesse debate, para dar conta da potência da crítica frente à indústria cultural. Essa apresentação retoma discussão de peça pouco citada, mas que pode sugerir novos marcos para o debate sobre a crítica e a indústria cultural. Trata-se de artigo de Theodor Adorno, "A indústria cultural revisitada". Nele o pensador alemão descreve de maneira visionária o funcionamento da indústria, que se apropriou de termos da tradição clássica em oposição aos quais o pensamento modernista de autores como Bertold Brecht e Walter Benjamin se estruturou. Nesse texto, Adorno sintetiza o espírito da indústria cultural de maneira visionária. A partir dele e de sua relação ainda válida com segmentos dessa indústria, será possível imaginar uma dialética de movimento dessa indústria? Essa apresentação se dedica a especular sobre a possibilidade de que a indústria tenha movimento próprio, gerado por contradições internas e por tensões com outras forças e que essas tensões geram desdobramentos transnacionais ao longo do século XX e no início do século XXI. Como as categorias de gênero, classe, geração e raça se definem e re-definem no interior desse movimento? O que os produtos da indústria cultural podem sugerir sobre eles mesmos e seu movimento? Como a noção de espetáculo cunhada por Guy Debord se relaciona à indústria cultural? De que maneira movimentos sociais se apropriam de repertórios cinematográficos para construir narrativas que ganham telas ao redor do globo? Como convergência e divergência se relacionam em circuitos que conectam e diferenciam telas? Qual a potência da crítica em um mundo de telas?
Bibliografia

Adorno, Theodor W. 1975. "Culture industry reconsidered." New German Critique n. 6.

Clark, T. J. 2007. "O estado do espetáculo." In Modernismos, edited by Sônia Salzstein, 307-330. São Paulo: Cosac Naify.

Debord, Guy. 2002 [1967]. A sociedade do espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto.

Hamburger, E. 2016. "Saímos do Facebook?" In Pluralidade Urbana em São Paulo, edited by Lúcio Kowarick e Heitor Frúgoli, 293-320. São Paulo: Editora 34.

Williams, Raymond. 2002 [1976]. "Drama numa sociedade dramatizada." Sinopse n. 9:60-68.