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  Título
As ondas de Martenot e a criação sonora no cinema
Autor
Filipe Barros Beltrão
Resumo Expandido
O presente artigo inicia uma pesquisa em torno da produção musical aplicada a trilha musical no audiovisual e dos seus processos criativos e estéticas. Essa investigação inicia-se a partir do estudo dos instrumentos musicais eletrônicos como ferramentas criativas a partir das suas variedades timbristicas e capacidades de manipulação das propriedades sonoras (altura, intensidade, duração e timbre). Dentro da grande variedades de instrumentos musicais eletrônicos (ROADS, 1996) destacaremos o Ondes Martenot. Esse instrumento foi inventado pelo francês Maurice Martenot em 1928 e foi um dos primeiros da música eletrônica. O Ondes Martenot é um instrumento monofônico e produz o seu som a partir de ondas oscilatórias. Ele possui: 1) teclas similares a um teclado, com uma sensibilidade que permite controlar a altura do som e o vibrato, 2) um anel com um fio paralelo ao teclado que permite realizar glissandos quando tocado, 3) uma tecla de expressão na mão esquerda, responsável pela intensidade sonora, a partir do peso dos dedos, 4) jogo de chaves que permitem alterar o timbre por diferente combinações e 5) alto-falantes de diferentes tipos que ampliam ainda mais as suas possibilidades timbristicas. A invenção de Martenot se engloba dentro desse primeiro momento criativo no qual surgiram instrumentos como o Teremim, lançado em 1920 pelo russo Léon Theremin (FREIRE, 2004) e o Mixtur-Trautonium. Inclusive o surgimento do Ondes Martenot foi motivado pelo encontro entre Maurice e o inventor do Theremin. Apesar das suas múltiplas possibilidades sonoras o instrumento ficou um pouco mais restrito aos compositores de música erudita e não obteve a mesma divulgação que o Theremin (PINTO, 2002). As possibilidades de texturas e sonoridades presentes no Ondes Martenot foram prontamente acolhidas pelo cinema dos anos 30, sobretudo na França, país onde o instrumento teve uma ampla difusão, sendo incluído escolas de música. A primeira utilização de um Ondes Martenot em uma trilha musical aconteceu no filme La fin du Monde do diretor Abel Gance em 1930. A música do filme foi composta por Arthur Honneger e demonstra a vontade de incluir o novo instrumento dentro do seu espectro criativo (LANGLOIS, 2012). O entusiasmo com Ondes Martenot é especificamente marcante, visto que ele ganha uma citação nos créditos iniciais, sendo celebrado como uma novidade. O instrumento em questão aparece no filme em uma cena marcante, onde o ondista surge tocando diegeticamente o Ondes Martenot no momento que antecipa o fim do mundo. A música executada é La Cygne (O cisne) do compositor Camille Saint-Saens. Na evolução da cena o instrumento deixa de desempenhar um papel melódico apenas e o seu som se amalgama aos efeitos sonoros simulando o som dos assovios do vento (LUCENTINI, 2014). Honneger foi um grande entusiasta do instrumento e mais uma vez utiliza-o no filme de animação L’idée (Berthold Bartosch, 1932). No início do filme o Ondes Martenot surgem novamente nos créditos com a frase “Nouvel Instrument d’Ondes Musicales -Martenot” reforçando o seu caráter inovador para aquele contexto histórico. Na maior parte da trilha musical composta por Honneger a função do Ondes Martenot é estritamente melódica, explorando a sua região médio-aguda e reforçando o vibrato que reforça o seu timbre. O instrumento tem um papel de solista sendo acompanhado por uma orquestra marcadamente composta por cordas e sopros. Entretanto, em momentos pontuais ele, dentro da própria construção melódica, simula sons de sirene, armas, explosões participando da construção dos efeitos sonoros diegéticos do filme.

A trilha do filme Forbidden Planet (Fred M. Wilcox, 1956) assinada pelo casal Louis e Bebe Barron é um marco da utilização dos instrumentos eletrônicos na ficção científica, na qual está presente o Ondes Martenot criando texturas e ambientando sonoramente o cenário ficcional. O Ondes Martenot nos permite criar um elo histórico para compreensão dos aspectos criativos da trilha sonora.
Bibliografia

CASTANHEIRA, Jose. Escutas cinematográfica: relações entre tecnologias e audibilidades no cinema. Tese (Doutorado em Comunicação Social) – Universidade Federal Fluminense, Instituto de Arte e Comunicação Social, 2014.



FREIRE, Sergio. Uma arte sonora absoluta, que não se chama música, segundo Kurt Weill (1925). Porto Alegre: Em Pauta v. 15, n. 24, janeiro a junho 2004.



LANGLOIS, Philippe. Les Cloches d'Atlantis: musique electroacoustique et cinéma. archéologie et histoire d'un art sonore. Paris: MF, 2012.



LUCENTINI, Vanderlei B. Incursões da Música Eletroacústica no Cinema. Novos Olhares, v. 3, p. 1-247, 2014.



PINTO, Theophilo. Música Eletrônica no Brasil: Vôos abortados de uma pesquisa frutífera. 2002. 0 f. Dissertação (Mestrado em Artes) - Universidade de São Paulo.



ROADS, Curtis. Early Electronic Music Instruments: Time Line 1899-1950. Computer Music Journal, Cambridge, v. 20, n. 3, p. 20-23, outono d