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  Título
Vestígios do tempo: a memória nos(dos) making ofs documentários
Autor
Patricia de Oliveira Iuva
Resumo Expandido
O objeto de estudo deste trabalho, o making of documentário, enquanto produto extrafílmico presente nos DVD’s/BD's colecionáveis, suscita diversas questões acerca do audiovisual. Na perspectiva desta proposta, os making ofs documentários (MDocs) realizados concomitantemente aos filmes dos quais eles falam sobre, operam agenciamentos de ordem mnemônica e reflexiva na produção audiovisual contemporânea. Ao construir uma imagem crítica do filme, numa relação de dupla distância, alguns MDocs evocam sentidos que reverberam para uma abertura na constituição de uma dada ideia de memória. O pensamento sobre as imagens desses MDocs nessa perspectiva implica a compreensão dos conceitos de Didi-Huberman (2010) da imagem crítica e da dupla distância e seu ponto de partida, o qual tem como origem as reflexões de Walter Benjamin acerca da imagem dialética e da aura, respectivamente. Interessa-nos a releitura do conceito operada por Georges Didi-Huberman (2010), cuja concepção da imagem dialética mantém o suporte crítico mas inscreve a relação da obra no espaçamento entre o observador e o observado. A inflexão fenomenológica de Didi-Huberman, que institui a dialética do ver, permite que façamos uma análise dos MDocs em que as relações do olhar se associam ao espaço de possíveis em que as obras se inserem, do mesmo modo que articulam conexões com uma dimensão histórico-crítica que transpassa a produção das imagens. Essa abordagem instaura a imagem crítica, que se faz reflexiva, que contém eficácia teórica e histórica. Nesse sentido, é possível dizer que a potência reflexiva das imagens críticas que constituem uma série de MDocs produz formulações e regimes de significação que se concretizam/surgem a partir da relação dialética do olhante (making of) e do olhado (o filme). Imagens de diferentes origens são aproximadas entre si através da montagem, no entanto, ao mesmo tempo, operam um distanciamento crítico no sentido reflexivo. Vale ressaltar, que a origem dessas imagens não se dá a conhecer como fonte ou gênese, mas como um turbilhão que revela, por um lado, o reconhecimento de uma restituição, ou restauração; e, por outro, acusa algo que, em si, está sempre inacabado e por finalizar (DIDI-HUBERMAN, 2010, p.171). Ora, o making of documentário opera imagens de diferentes ordens, seja da restituição de um dado filme, que, no entanto, ali está sempre inacabado, seja da sua própria existência, cuja marca principal é sua abertura temporal por se tratar de um tempo da memória. O desafio que se apresenta é o exercício de leitura e/ou deciframento das imagens dos MDocs na constituição de uma tessitura de linhas temporais diversas, que se inscrevem com a potência de manifestar condições históricas de um modo e/ou modelo de fazer cinema bem como um conjunto de saberes e conhecimentos acerca de uma obra (o filme). Há que se atentar que a análise busca compreender a dimensão da dialética do olhar a fim de entender o jogo da relação entre o olhante (o making of) e o olhado (o filme), pois é a partir deste vai e vem que poderemos compreender a constituição da memória e das imagens críticas. A câmera dos MDocs produz um olhar sobre um dado filme, as imagens provenientes de diferentes tempos e espaços, articuladas na montagem, não dão conta de todo o processo. Para Didi-Huberman (2010), a imagem vai além do visível, e é justamente o que não está exposto ao olhar (o que está na sombra) que é necessário escavar. Nesse sentido, a perspectiva metodológica de análise se alinha à ética do olhar, do contraste entre o visível e o invisível das imagens dos MDocs buscando a imaginação nessa experiência com as imagens. Para isso, operamos com os MDocs Burden of Dreams (1982) e The Hamster factor and other tales of Twelve Monkeys (1996), sobre os quais se empreende o movimento analítico que busca compreender o engendramento das relações de memória entre o filme e o documentário making of através da produção das imagens críticas e das
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